O drama ganha contornos mais negativos quando se analisa o tamanho desses municípios: 43 dos 58 têm menos de 50 mil habitantes. "Hoje nosso problema no Brasil é mais grave no álcool. Mas o crack vem entrando de forma galopante no interior de São Paulo", afirma a psicóloga Janice Megid, diretora da primeira clínica especializada em desintoxicação do interior, aberta em Botucatu. Para ela, álcool e crack têm características distintas em relação ao padrão de usuários. "Um dependente de álcool geralmente tem problemas no âmbito da família, com esposa, filho, mas ainda está trabalhando. Quando a gente pega um dependente de crack, ele já está envolvido com o tráfico, já está furtando, ocasionalmente roubando. A maioria, além da dependência, tem um transtorno psicótico associado ou um transtorno de humor."
A maior concentração de municípios onde a pedra já superou a cachaça está na região de São José do Rio Preto, no Noroeste paulista, uma das áreas ricas do Estado. Das 58 cidades que declaram ter mais problema com crack que com álcool, 19 estão nessa área. "Rio Preto está no entorno de aproximadamente 101 municípios pequenos. É um lugar de oportunidades, onde as pessoas sentem muita facilidade por exemplo para pedir esmola, donativos. Então houve uma concentração importante de moradores de rua. E, pelo levantamento que nossa secretaria de assistência fez, mais de 90% dessa população tem problemas com drogas, em especial álcool e crack", explica a coordenadora de Saúde Mental, Daniela Terada.
O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, afirma que ainda em 2011, quando o órgão lançou a campanha Craque que é Craque Não Usa Crack, informou o governo federal sobre o alastramento da droga. "A própria ABP já tinha alertado o Ministério da Saúde sobre a situação. Porque o crack chegou ao Brasil na década de 1980, não foi agora. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por meio de estudos, apontou a gravidade que era a dependência do crack e o quanto ele estava se alastrando e saindo das grandes cidades para as pequenas."
Divulgada em setembro, a pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) apontou que o tempo médio de vício do craqueiro nas capitais é maior do que nas cidades pequenas e médias. Segundo pesquisadores, esse resultado sugere que "o uso da droga vem se interiorizando mais recentemente". Para entender o alcance desse fenômeno, basta olhar os índices proporcionais de atendimento. De acordo com o levantamento da frente parlamentar, em 2011 o vício na pedra levou à rede pública das 299 cidades paulistas mapeadas 50,5 mil pessoas. Nas pequenas, o número de atendidos por grupo de mil habitantes chegou a dobrar em relação à média geral do Estado, de 1,63.
"O álcool já correspondeu no passado a aproximadamente 70% a 75% dos internados. Hoje, corresponde, no dado de 2012, a 52% – os outros 48% são de drogas ilícitas, sobretudo a cocaína inalada ou fumada (crack)", explica o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Vitore Maximiano.
Outro indicativo importante da maior atenção que as autoridades de saúde devem ter em relação ao avanço do crack no interior diz respeito aos episódios de intoxicação aguda entre dependentes entrevistados na pesquisa da Fiocruz. Ao todo, 7,8% disseram ter passado pelo problema nos 30 dias anteriores ao questionário. Desses, 44,7% o atribuíram ao consumo excessivo do crack e 24% ao abuso do álcool.
Também é preocupante a reincidência de atendimentos de craqueiros na rede, muito maior nas cidades com população entre 5 mil e 50 mil habitantes que responderam ao levantamento da frente parlamentar, de 2012. Com as alterações provocadas no corpo e a degradação das condições de vida, as recaídas já são parte esperada do tratamento.
Um dos critérios para definir a existência do fenômeno é o crescimento expressivo de casos em determinado período. Segundo alguns especialistas, como ainda não há dados fundamentados sobre esse crescimento abrupto em pesquisas no Estado, não se pode admitir o termo cientificamente. É o que pensa, por exemplo, o diretor do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (Proad) Dartiu Xavier da Silveira. "Teve muitas pessoas falando sobre aumento de números (de crack) e eles foram chutados."
Na direção contrária, o coordenador do principal programa do governo do Estado para tratamento de dependentes e da política antidrogas, Ronaldo Laranjeira, é um dos principais defensores da tese de que o crack avança como epidemia. "O governo federal negou durante muito tempo, mas o nome do que está acontecendo é epidemia."
Um indicativo desse crescimento foi revelado no levantamento da frente parlamentar. Entre 2010 e 2011, registrou-se aumento no porcentual de cidades que têm o crack como droga prevalente nos atendimentos. De um ano para outro, o índice cresceu mais de 10 pontos porcentuais.
Já o responsável pela área no governo federal prefere não falar em
epidemia, mas diz que a resposta ao avanço do crack tem de ser dada
como quando se enfrenta uma doença que efetivamente se prolifera
rapidamente. "Sei que esse tema – se tem ou não epidemia – passou a
ser usado quase como uma queda de braço. O que posso afirmar é que o
problema é grave e o País tem cada vez mais buscado instrumentos,
recursos e meios para enfrentá-lo", garante o
secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Vitore Maximiano.