Jovem segura chaves do apartamento. Imagem faz close apenas nas mãos da pessoa
Localização é o aspecto que os jovens mais levam em conta: busca é por segurança e acesso a transporte | Foto: Sephelonor/Pixabay

Você está pronto para encarar o desafio de sair da casa dos seus pais?

A independência vem acompanhada de responsabilidades. Da escolha do melhor lugar para viver ao contrato de aluguel e às contas a pagar

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Os motivos são variados: você muda de cidade, consegue um emprego novo ou precisa ficar mais perto da faculdade, para evitar os longos deslocamentos. E nem sempre há muito tempo para pensar em cada detalhe, ou seja, é possível que você seja pego meio de surpresa pela burocracia quando precisar morar sozinho ou buscar apartamento para dividir com amigos.

Lidar com contratos exige conhecimento e maturidade. Aluguel, multa de rescisão, contas e escolha do local do imóvel são pontos que podem confundir você e atrapalhar uma experiência que tem tudo para ser bacana. Pensando nesta situação, o Por Minha Conta montou uma seleção de perguntas e respostas para você encarar o desafio da melhor maneira possível.

Está mesmo na hora de morar sozinho?
Além de analisar sua situação emocional, é preciso se planejar com antecedência e saber qual sua real condição econômica. Para o educador financeiro Cássio Motomura, da DSOP, o jovem que opta por morar sozinho precisa adequar seu estilo de vida ao padrão que ele vai passar a ter. “Esse jovem tem de lembrar que vai passar a gastar com coisas que antes ele não gastava”, diz o especialista, ressaltando a importância de manter as contas equilibradas. Uma das formas de fazer isso é dividir o aluguel com amigos. Um dos fundadores da startup QuintoAndar, André Penha, afirma que muitos jovens fazem essa opção nos primeiros anos fora de casa, para compartilhar os altos custos. “Especialistas apontam que o ideal é não comprometer mais do que 30% da renda com o aluguel”, afirma Penha. “Mas nós sabemos que, no início de carreira, essa pode ser uma realidade um pouco difícil.”

Ida Damkilde/PixabayTapete tipo capacho aparece em close, com a palavra Home, casa em ingl~es, CapaT
Além de pensar se você segura a onda de morar sozinho, há várias questões burocráticas

O que vou precisar pagar além do aluguel?
Muita gente se esquece, mas o aluguel não é a única despesa quando se mora sozinho. Também entram na conta o condomínio e o IPTU, que podem estar no contrato de aluguel ou ser pagos diretamente ao prédio. Piscina, academia, salão de festas e espaços do gênero são determinantes para o valor do condomínio. A dica, então, é só optar por imóveis com esses serviços se você tiver realmente tempo para aproveitá-los. “Esses espaços compartilhados são muito subutilizados”, explica o educador financeiro Motomura. “Se a pessoa tem a intenção de investir um pouco mais no condomínio, precisa fazer uma agenda semanal para que ela tenha tempo de usufruir tudo o que ele oferece.” Além disso, há as contas de água, luz e gás. Em alguns locais, elas são divididas entre os condôminos. Em outros, cada apartamento tem uma conta individual. Achou que ia parar por aí? Você terá mais boletos ao fim do mês se optar por internet, pacotes de TV ou telefone fixo.

Como fazer nos imprevistos?
O publicitário Rafael Zindra, de 23 anos, levou alguns sustos com o prédio onde fica o apartamento que divide com amigos em São José dos Campos (SP). “Além dos valores e taxas fixos mensais serem altos, há ainda situações em que o síndico decide pintar a portaria e aumenta o valor do condomínio sem avisar”, conta o jovem. Despesas assim não estão previstas e podem pegar desprevenidos aqueles que não têm dinheiro sobrando. Por isso, os especialistas aconselham que você reserve sempre uma quantia no mês para gastos inesperados, seja um serviço novo no prédio, o aumento das contas de luz ou água ou mesmo se algo quebrar em casa e precisar ser trocado (como problemas com eletrodomésticos ou encanamento, por exemplo).

Michal Jarmoluk/Pixabay
Se você não tiver reservas, como vai resolver a torneira que pinga a noite inteira?

Vou de fiador, seguro fiança ou depósito caução?
A maior parte dos contratos é feita por meio de fiador ou depósito caução, segundo a gerente de Inteligência de Mercado do Grupo ZAP, Cristiane Crisci. Mas a modalidade é algo que geralmente se discute direto com o proprietário. Não sabe direito o que significa cada um dos tipos? Vamos lá! O fiador é a pessoa física que vai garantir o seu crédito e, por isso, ficará responsável pela dívida se você deixar de pagar o aluguel. Atenção: nem todo mundo serve como fiador. É preciso que a pessoa tenha um imóvel mesma cidade onde você vai alugar o seu apartamento ou a sua casa. Já o seguro-fiança é um valor pago por mês para garantir que os valores do aluguel e de outras despesas sejam pagos ao proprietário, caso você deixe de honrar suas obrigações. “Essa modalidade pesa muito no bolso do inquilino”, explica Penha, fundador da QuintoAndar. “Pode chegar até a um aluguel e meio por ano.” Nos casos de depósito caução, você faz um pagamento adiantado para garantir o aluguel – o valor pode chegar ao equivalente a três meses de aluguel, máximo estipulado pela Lei do Inquilinato. E tudo deve estar devidamente documentado no contrato. “Ao término, o inquilino pode reaver o dinheiro, caso não exista nenhum dano no imóvel ou necessidade de manutenção”, diz Penha.

Vou dividir apartamento com amigos. O que faço?
Ser transparente durante todo o processo de aluguel é muito importante, segundo advogado imobiliário Luciano Rossi, do escritório Pinheiro Neto. Principalmente se você vai dividir o imóvel. “Não adianta só uma pessoa negociar com o proprietário e, no dia seguinte, chamar mais gente para dividir o apartamento. Isso pode causar problemas”, adverte Rossi. O advogado aconselha que o nome de todas as pessoas que vão morar no imóvel estejam no contrato de locação. Até para evitar que seu colega saia do apartamento sem aviso prévio e deixe você com um problemão para resolver.

Há multa se eu rescindir o contrato?
A resposta aqui é depende. Em geral, os contratos de aluguel costumam ter prazo de 30 meses. Segundo o advogado Luciano Rossi, esse tempo longo dá segurança para inquilinos que mudam de cidade e precisam de estabilidade. Caso de quem faz uma faculdade, por exemplo. Mas você não precisa se assustar. É costume no mercado de aluguéis haver rescisão de contrato sem multa depois de um ano de locação. O gasto mesmo fica só com quem resolve sair antes dos 12 meses, pois a multa rescisória costuma ser de três aluguéis, de acordo com Rossi. Uma dica: é importante avisar a saída para o proprietário com antecedência de 30 a 60 dias.

O que você deve levar em conta na hora de escolher o apartamento?
A localização do imóvel é o aspecto mais importante, sem dúvida nenhuma. Oitenta porcento dos jovens entre 18 e 24 anos entrevistados para uma pesquisa do Grupo ZAP buscam um bairro seguro e 72% querem morar em um local com bom acesso a transporte público. Já estar perto do trabalho é pré-requisito para 40% dos jovens. A pesquisa foi feita entre 11 de julho e 8 de agosto, com 331 usuários dos sites ZAP Imóveis e Viva Real. “As pessoas têm buscado mais qualidade de vida”, afirma Cristiane Crisci, gerente do Grupo ZAP. Foi exatamente o que pensou a economista Yasmin Riveli, de 23 anos. Há oito meses, ela trocou a república que dividia com amigas no bairro no Butantã por um apartamento na Avenida Paulista, centro econômico de São Paulo, vizinho de onde trabalha. “Aproveitei meu impulso de autoconhecimento e de busca por novos desafios para morar sozinha”, conta. “Morando perto do trabalho, poupa horas que antes gastava no trânsito.” Ainda segundo a pesquisa, 27% dos entrevistados querem ficar mais perto do trabalho e 24% buscam a proximidade da faculdade.

Amanda Perobelli/Estadão – 26/1/2017Avenida Paulista na altura da Estadão Trianon Masp. A imagem mostra o prédio da Fiesp à esquerda, no alto, a avenida e carros passado. O trânsito está calmo
A região da Paulista foi a escolhida por jovem de 23 anos que antes vivia no Butantã

Comprar ou alugar: o que é mais vantajoso?
Isso depende muito da sua situação financeira. Mas, em geral, quem está na sua faixa etária acaba ficando com o aluguel. Não só por falta de reserva financeira e de renda, mas por decisão pessoal. “A geração dos meus pais aprendeu que carro e casa própria eram fundamentais para uma vida adulta de sucesso, mas hoje isso deixou de ser uma pressão tão forte”, afirma a economista Yasmin. “Atualmente, morar sem carro em um apartamento alugado na região central de São Paulo, cercada de opções de transporte, me deixa satisfeita.” Yasmin não pensa em comprar um imóvel tão cedo e não vê problema nisso. A decisão é boa, na opinião do educador financeiro Motomura. Segundo ele, alugar um imóvel pode ser mais vantajoso do que comprar, pelo ponto de vista financeiro. “Duas coisas que as pessoas não avaliam na hora de comprar são a manutenção do local, porque ele vai precisar de reforma, e as instalações”, explica “Isso não ocorre no aluguel, pois quem assume esses riscos é o proprietário.” Embora não seja uma realidade para muitos, comprar um imóvel pode garantir vantagens financeiras no momento atual, na opinião de Cristina, do Grupo Zap. “Como a taxa de juros caiu, o mesmo ocorreu com a taxa de crédito imobiliário”, diz a gerente de Inteligência. “Então, existe uma competição entre os bancos, com taxas boas.”

Por fim, ela. Como lidar com a eventual ‘bad’ de estar sozinho?
Seja compartilhando uma república com cinco amigos ou vivendo só no seu cantinho, nada vai ser como estar na casa dos pais. Todos os problemas que surgirem terão de ser resolvidos por você. Morar sozinho (ou com amigos) é reconhecer: sou adulto agora! Apesar das dificuldades financeiras, todos os entrevistados citaram a parte emocional como um dos maiores desafios nessa jornada. Rafael Zindra sente que o maior desgaste emocional vem da sensação de estar sem apoio. “Você precisa fazer tudo por você, já que ninguém vai fazer por você.” Já Yasmin lida bem com a sensação na maior parte do tempo. “Gosto de poder pensar e organizar minha casa do meu jeito”, conta. Mas ela confessa que algumas vezes é difícil não ter alguém ao lado quando as coisas fogem ao controle seja financeira ou emocionalmente. “Quando se mora com outras pessoas e surge um gasto inesperado, todo mundo se junta para resolver”, diz a economista. “Da mesma forma, se você chega triste em casa, todo mundo se junta para animar você.” Para ela, o lado bom de viver essas coisas sozinha é conhecer mais de si mesma e se tornar mais forte.