Arte em fundo azul marinho com cinco símbolos que lembram emojis. O primeiro é de uma sacola vermelha e notas de dinheiro. O segundo é de uma carinha triste, o terceiro de um carrinho de compras e o quarto de um rosto feliz. Já o último símbolo é de uma maleta de viagem.
O ciclo é sempre o mesmo: encher as sacolas, muitas vezes por impulso, e depois se arrepender | Arte: Bruno Caniato

Exagera sempre no shopping? Cuidado, isso pode ser uma doença

Compulsão causa desgaste psicológico e estresse: entenda melhor a oniomania, o nome oficial daquele vício de fazer compras

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Quem nunca comprou algo de que não precisava por impulso? Durante um rolê casual no centro da cidade, é fácil tropeçar numa liquidação imperdível e voltar para casa com uma sacolinha na mão, alguns zeros a mais na fatura e um sorriso inigualável de satisfação. Para 86% dos jovens, consumir aquilo que desejam é uma grande alegria – mesmo que 77% já tenham se arrependido de uma compra, segundo pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

Ilustração com fundo azul marinho. O título, em branco, diz "consumismo & impulsividade". Do lado esquerdo há uma coluna com a pergunta "comprar faz o você feliz?" Cuidado: a maioria dos jovens se arrepende depois. 86% consideram uma grande alegria consumir o que desejam. 77% afiram que já se arrependeram de algo que compraram". Ao lado dos dizeres há um desenho de sacola e carinha triste. Uma barra laranja divide a ilustração no meio. Do lado direito há os dizeres "75% têm como objetivo trabalhar muito para comprar o que desejam. 39% gastam mais do que o previsto em promoções. 32% sempre cedem aos impulsos na hora de comprar." Ao lado dos dizeres há três desenhos: de uma mala, carrinho de compras e carinha feliz.

O  que para muitos é uma compra pontual pode ser uma rotina patológica para outros. Estamos falando de oniomania, um transtorno que leva o indivíduo a comprar de forma compulsiva. Para quem sofre deste distúrbio, a compra deixa de ser uma opção e vira um vício. Frequentemente, o oniomaníaco compra produtos dos quais não precisa e assume gastos que nem sempre pode pagar.

Era isso que acontecia com a psicóloga Mylla Moreira, de 23 anos. “O maior problema era ir comprar alguma coisa específica e sempre sair da loja com três vezes mais do que o imaginado”, conta. Ela revela que chegou a gastar R$ 6 mil em um único mês, principalmente com artigos de beleza, e que seu vício em compras era fonte constante de estresse e desgaste psicológico. “Entrei num círculo vicioso, onde eu comprava muito, trabalhava muito para pagar, me sentia esgotada e triste, e comprava novamente para melhorar aquela sensação”, relata a jovem.

Para a psicanalista Vera Rita de Mello, doutora em psicologia social e autora do livro Psicologia Econômica (Campus-Elsevier, 2008), o comprador compulsivo vive constantemente em conflito interno, tentando sempre controlar o impulso de comprar e, eventualmente, cedendo. “Normalmente, a pessoa está numa situação de depressão leve ou moderada, com problemas de autoestima, e encontra nas compras a solução temporária”, afirma. “Muita gente nem chega a abrir o pacote; compra e sente uma certa culpa, fica com vergonha e esconde dos familiares”, explica.

Foto: Gildo Mendes/DivulgaçãoVera Rita de Mello tem os cabelos curtos, na altura da orelha, na cor azul. Ela possui os olhos castanhos e usa batom vermelho. Ela veste camisa branca e blazer preto. Vera sorri.
Compra acaba virando solução temporária, alerta a psicanalista Vera Rita de Mello

Coordenadora do Programa de Transtornos do Impulso do Hospital das Clínicas de São Paulo, Tatiana Filomensky diz que o ato de comprar é prazeroso e libera dopamina.  “Isso acaba virando uma dependência do comportamento, muito parecida com uma dependência química”, explica a psicóloga do HC. Nessa situação, o que importa é o ato de comprar, e não necessariamente o produto comprado.

Segundo Tatiana, a compra compulsiva é um comportamento irracional e pautado em emoções, sejam elas positivas ou negativas. Um oniomaníaco pode, por exemplo, comprar roupas e acessórios para ir a uma festa, mesmo que já tenha um armário cheio. Por outro lado, em momentos de frustração ou ansiedade, o prazer de comprar mascara aquela sensação, sem resolver a verdadeira causa dos sintomas.

Compulsão ou consumismo?

A oniomania não está atrelada a uma frequência de compras específica; também não existe um limite de valor onde acaba o exagero e começa a compulsão. O transtorno é caracterizado quando a pessoa passa a utilizar a compra como um alívio temporário e não consegue mais evitá-la, semelhante a uma dependência química.

Uma das diferenças entre o oniomaníaco e o consumista está na relação do indivíduo com suas próprias compras: vergonha ou orgulho. “O comprador compulsivo tem um sofrimento emocional marcante pela repetição daquele comportamento, o que gera angústia”, explica a psicóloga Tatiana. “Por outro lado, o consumista compra aquilo que consegue e quer exibir isso para todos”, afirma.

O consumismo não é uma patologia, e sim, uma tendência ao desejo de consumir. “O ser humano vive uma busca constante pela satisfação”, afirma a psicanalista Vera Rita de Mello. “Isso casa com a estruturação da sociedade em torno do consumo: a economia atual depende de um consumo constante”. Desta forma, as marcas  construíram estratégias de explorar o desejo do consumo nas pessoas. As principais são:

  • Comportamento de manada:

Quanto mais pessoas compram algo, mais as outras pessoas acreditam que também precisam comprar

  • Fear of missing out (FOMO):

Em português, “medo de perder”; se a pessoa não tem um certo produto ou faz determinada viagem, ela acredita que está perdendo a oportunidade de ter aquela satisfação;

  • Efeito da escassez:

O consumidor corre para comprar, por medo de que o produto acabe e ele fique sem;

  • Promoção:

A ideia de pagar menos é sempre atrativa, mesmo que não represente um desconto verdadeiro