Como os ladrões cavaram 74 metros para invadir a caixa-forte do banco

8 de agosto de 2015

Como foi escavado o túnel do Banco Central Clique aqui e assista ao vídeo completo. Quando voltou para a cadeia, todo bandido sabia: o homem era um dos ladrões do Banco Central. De bermuda laranja e camisa branca, ele aguardava na sala minúscula acompanhado por um agente penitenciário. Estava sem algemas. “Não me classifico como celebridade ou coisa do tipo. Para mim, aquilo foi uma coisa que a gente tentou fazer certo e errou”, diz. Aqui seu nome será Rafael. É assim, com um nome fictício, que o condenado por ter participado do maior furto da história do país exigiu ser identificado. Pela primeira vez, um dos ladrões que levaram R$ 164,7 milhões do banco em Fortaleza, no Ceará, concordou em falar. E muito. O homem contou detalhes sobre como foi o trabalho para cavar o túnel de 75 metros usado pelos bandidos no ataque. Um "trabalho fácil" para quem estava acostumado a cavar para fugir de outros furtos a banco. A experiência na cadeia estava a serviço do crime.

Durante a entrevista, permaneceu desalgemado. Estava à vontade, de chinelos, e gesticulava. Com o semblante sério, pinçou da memória os detalhes do crime quase perfeito, que o levou para a cadeia. Depois de reunir as 3 toneladas e meia de papel moeda levadas da caixa-forte, Rafael ficou com a tarefa de guardar R$ 56 milhões em notas de R$ 50. Ficou em Fortaleza, em uma casa. Ao ser questionado por que não fugiu com os milhões, sorriu e disse: "Como é que leva? Não dá para levar. Não cabe. É muito dinheiro, menina! Como é que vai colocar numa caminhoneta ou num carro?"

Como todo bandido, Rafael sonha com novo golpes, novos malotes, novas fortunas. Quer sair da cadeia em breve. E planeja outros delitos tão ou mais ousados do que o grande furto do Banco Central. É esse o crime, que completa dez anos, que o Estado passa agora a contar. Personagens em Brasília, Fortaleza e São Paulo foram ouvidas; documentos e vídeos inéditos, examinados. O especial revela a trilha do dinheiro e o destino dos principais participantes dessa trama, os desdobramentos das investigações que levaram à prisão dos bandidos e um mapa do crime organizado no Brasil, com detalhes sobre a principal facção em atividade: o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Foram preciso pouco mais de seis horas, na madrugada de 5 para 6 de agosto de 2005 para os assaltantes conseguirem apanhar uma fortuna em notas de R$ 50 - como eram usadas, não podiam ser rastreadas pelo número de série. A quantia empilhada equivalia a 330 metros de altura. Se colocadas umas sobre as outras, as notas teriam a altura de um prédio com quase o dobro da altura do maior edifício de São Paulo, o Mirante do Vale.

De tudo o que foi levado, até hoje só foram recuperados R$ 12,5 milhões em bens e R$ 20 milhões em espécie. Ou R$ 32,5 milhões. Quase a mesma quantia foi parar nas mãos da banda podre das polícias estaduais ou de bandidos comuns que sequestraram e achacaram os ladrões do Banco Central e seus familiares. A Polícia Federal estima em R$ 30 milhões o total roubado dos criminosos.

O furto resultou em 28 ações penais e 129 denunciados na Justiça Federal do Ceará. Somadas, as penas totalizaram 2.452 anos, considerando as sentenças da primeira instância. Em instâncias superiores, o número caiu pela metade: 1.038 anos. Atualmente, pelo menos 82 réus estão em liberdade - seja porque já cumpriram o tempo de punição estipulado ou porque receberam o direito de aguardar seus recursos em liberdade.

Entre os que estão presos, alguns poderão progredir de regime ainda neste ano, passando para o semiaberto. Agora, eles passam a temer novas extorsões. A maioria dos réus condenados por lavagem de dinheiro ainda espera o término de seus processos, com a sentença definitiva que pode ou não mandá-los para a cadeia. Só dois dos condenados conseguiram até agora ludibriar a PF e escapar de todas as operações para detê-los.

O Plano. Essa é uma história que não existiria sem dinheiro e sem expertise. E foi em São Paulo que os ladrões cearenses foram buscá-los. A ideia nasceu em Fortaleza. “Você vai assaltar? Então por que não assalta o Banco Central?”. Antônio Jussivan dos Santos, o Alemão, ficou incrédulo com a provocação do comparsa e ex-vigilante de empresas de segurança, Deusimar Neves Queiroz, o Gordinho. O homem loiro de olhos claros, ladrão experiente, rebateu a ideia: “Você é maluco? Como é que assalta o Banco Central?”.

Atraído pela ideia, o cearense Alemão tinha acabado de retornar ao Estado de origem. Largou Brasília, onde fracassou na tentativa de roubo à Confederal Vigilância e Transporte de Valores. Mudou-se para Fortaleza com a intenção de furtar uma transportadora. Não queria errar de novo. Mas acabou mudando os planos em conversa com o amigo Deusimar.

Por ele, Alemão soube que no interior da caixa-forte do BC havia notas velhas e não rastreáveis com dois possíveis destinos: trituração ou retorno aos bancos. As cédulas usadas ficavam armazenadas juntas, separadas das notas novas. As informações eram confiáveis, garantiu o parceiro de Alemão. E privilegiadas. O informante era funcionário do próprio Banco Central do Brasil, em Fortaleza, e colega de Deusimar.

Entrar pela porta da frente nunca chegou a ser opção. Foi Gordinho quem sugeriu a Alemão a viabilidade subterrânea do furto. O plano surgiu a partir de uma conversa informal com o amigo e vigilante do Banco Central, Edilson dos Santos Vieira, conhecido como “Dez”. O funcionário contou ao colega Deusimar que tinha o costume de acessar o interior do cofre, ajudando a carregar malotes de dinheiro para dentro e para fora. Não deveria. Na caixa-forte, a norma era que só entrassem funcionários graduados da instituição.

Quando o carro forte estaciona na parte externa do Banco, ao lado do cofre, para buscar ou deixar dinheiro, o correto é que os vigilantes desloquem os malotes e deixem na porta. É a vez então dos funcionários da instituição, que pegam o dinheiro e conduzem para dentro.

O Banco, no entanto, começou a achar mais conveniente mandar o vigilante do carro-forte. “Ah, aproveita e deixa ali dentro”, dizia o chefe da instituição aos seguranças da empresa . Alguns vigilantes do Banco Central passaram a ajudar também. Assim, funcionários fizeram amizade e ganharam intimidade com os chefes. Edilson era um deles. Passou a andar por dentro da caixa-forte e a conhecer tudo. O vigilante repassou as brechas no sistema de segurança para o colega Deusimar, que, por sua vez, compartilhou com Alemão.

A vantagem de dispor de um comparsa tão íntimo com o funcionamento do Banco agradou ao líder do grupo. Alemão propôs uma reunião com Dez. O plano começou a ser montado na tranquilidade de uma casa de praia em Cumbuco, a 35 quilômetros da capital cearense. Edilson transmitiu tudo o que escutara das conversas dos funcionários: parte do dinheiro não é rastreada, muitas cédulas são destruídas e o que retorna aos bancos é mantido em uma região do cofre sem tanto controle. As câmeras de segurança não gravam, apenas filmam em tempo real. Há um ponto cego no sistema e o recurso do zoom inexiste. Identificar um rosto, então, é impossível.

“Pô, então esse negócio dá futuro. Tem como você tirar umas fotos lá de dentro?’”, pediu Alemão a Dez. O funcionário respondeu que sim, porque trafegava livremente com o celular. Não poderia. Usando o próprio telefone, o vigilante chegou a tirar fotos do interior do banco e passou informações sobre a estrutura da caixa-forte: tamanho, conteúdo e disposição do dinheiro não rastreável.

“Ele passou verbalmente. E um desenho também. Tivemos acesso a mais coisa porque tivemos a oportunidade de falar com mais gente de dentro”, conta Rafael, que foi chamado para participar do crime em maio de 2005.

Jorge Luiz se passou por “Paulo Sérgio” para fundar empresa de grama sintética. Na foto, a cópia da identidade que deixou na Junta Comercial. Foto: Vidal Cavalcante/AE Inicialmente, o convite dos amigos, conhecidos de Alemão, era para participar de um “trabalho” em alguma transportadora de valores. Quando o líder mudou os planos e definiu que, na verdade, furtaria o Banco Central, estendeu a convocação aos companheiros. Preso em outras ocasiões por assalto a banco, Rafael foi convidado a participar do furto ao BC por já ter cavado outros três túneis em roubos a banco. A experiência pesou. “Minha participação no furto era o conhecimento”, define o ladrão.

Em Fortaleza, a primeira parte do plano entrou em prática com o apoio dele. Alemão e os primeiros membros do bandos convidaram um parceiro de Minas Gerais. Jorge Luiz da Silva, o Mineiro, conhecido por ser um hábil 171, uma referência ao artigo do Código Penal que define o crime de estelionato. “Eu monto a empresa. Fico ‘de testa’ como gerente e dono”, disse o Mineiro, sujeito falador e simpático. Fazia amizade com facilidade e se apresentou para toda a vizinhança do banco. Queria alugar uma casa.

Delegado Antonio Celso conduziu inquérito que apurou circunstâncias do crime em Fortaleza. Foto: Dida Sampaio/AE Com as plantas da caixa-forte e do terreno em mãos, Alemão sabia que seria preciso convidar um especialista em túneis. Entre os desafios da empreitada, como driblar as redes fluviais sob casas e asfalto, o mais difícil seria romper a laje de concreto no piso do cofre, com 1,10 m de espessura.

Para isso, Alemão fez contato com os amigos paulistas. “Esse tipo de crime, com tal magnitude, normalmente tem alguém de São Paulo envolvido. Todos esse crimes grandes ou nascem, ou passam ou terminam em São Paulo”, explica o delegado da Polícia Federal responsável pelas investigações, Antônio Celso dos Santos.

Paulistas. “Deixamos tudo certinho. Aí veio o pessoal de São Paulo”, relembra Rafael. A turma de São Paulo se acertou em fevereiro de 2005, quando quatro amigos se encontraram em um bar no Arujá, município da Grande São Paulo. O grupo sentou e pediu cerveja. Um convite estava prestes a ser feito. O grupo de quatro ladrões profissionais, ligados ao PCC, reuniu-se. O traficante da zona sul da capital paulista, Luiz Fernando Ribeiro, o Fernandinho, havia marcado a reunião para oferecer trabalho a três amigos do crime. Era um trio de especialistas em assalto a banco, transportadora de valores e carro-forte. Constava nos currículos de Moisés Teixeira da Silva, David Silvano e Silva, o Véio Davi e Pedro José da Cruz, o Pedrão, a participação em duas fugas da Casa de Detenção, no Carandiru, zona norte de São Paulo. Os três haviam escapado por túneis.

Um convite estava prestes a ser feito

Moisés e Véio Davi fizeram parte de uma das maiores fugas da história do Complexo do Carandiru. Com outros 103 presos do Pavilhão 8 da Casa de Detenção, os dois escapuliram na manhã de 8 de julho de 2001 por um túnel cavado de fora para dentro do presídio. Cinco anos antes, em 9 de maio de 1996, Pedrão fugiu com mais 51 presos do Pavilhão 7 da Detenção por um túnel de 50 metros de extensão.

As passagens cavadas no Carandiru em 1996 e 2001 tinham iluminação e sistema de ventilação e eram escoradas com tábuas de madeira para evitar desmoronamentos. A técnica viria a ser repetida no túnel em Fortaleza. Com as fugas, as amizades se fortaleceram. Moisés, Véio Davi e Pedrão estavam unidos pelas escapadas.

Pedrão, que já tinha sido pedreiro, ajudou a fazer as escavações do túnel na fuga de 1996 e passou a ser chamado de “Engenheiro”. Ganhou o respeito dos jovens, como Fernandinho, traficante articulado, com liderança entre os bandidos. Ao receber o convite do antigo camarada cearense e ex-camelô de Diadema, o Alemão, para financiar o crime, liderar parte do grupo e eleger um especialista em túneis, Fernandinho não teve dúvidas. Pedrão era o nome certo.

A reunião no bar tinha o propósito de apresentar o plano ao “Engenheiro”. Lá, foi selada a união entre os quatro principais nomes do lado paulista. O traficante acionou a rede de contatos e garantiu pelo menos 10 homens para o furto. Fernandinho se comprometeu a entrar com R$ 200 mil, pagando “salários” antecipados, comprando passagens aéreas para os companheiros e bancando hospedagem de parte do grupo em Fortaleza. “De tudo, gastamos (para financiar o furto) de R$ 250 a R$ 300 mil. Investiram, né? Teve (dinheiro) de São Paulo e do Ceará também. Mas mais de São Paulo”, explica Rafael.

Moisés liderou a outra parte paulista do grupo. ‘Cabelo’, como era conhecido, tinha adquirido experiência em escavações de túneis após fuga do Carandiru em 2001. Também ganhou fama no mundo do crime por roubos a transportadoras de valores, quando entrou em caixas-fortes da Rodoban e Transbank, em São Paulo, e levou milhões. Com influência no meio e parceria do amigo Véio Davi, recrutou mais 12. Estava montado o núcleo de São Paulo. O próximo passo era ir a Fortaleza para verificar in loco a viabilidade do túnel.

Centro de Fortaleza. O ‘engenheiro’ Pedrão viajou à capital cearense para avaliar pessoalmente as esquinas do Banco Central. Ele fez o levantamento no cruzamento da Avenida Dom Manuel com Heráclito Graça, local da instituição no centro de Fortaleza. “Dá para fazer. Quanto mais perto vocês conseguirem uma casa aqui, melhor, porque o túnel vai ser menor”, comunicou ao grupo. Posteriormente, ao procurar o local perfeito para começar o túnel, a quadrilha ainda tentou alugar um imóvel a poucos metros do banco, mas não conseguiu. Outra possibilidade foi levantada, porém, descartada em seguida: o acesso ao cofre pela rede de águas fluviais.

Casa que foi utilizada como fachada pelo grupo durante escavação do túnel em Fortaleza. Foto: Evilázio Bezerra/O Povo Pedrão definiu que seria melhor passar por baixo, mas deu o recado: vai sair muita terra e alguém pode desconfiar. Precisavam de um “caô”, um álibi para que o plano funcionasse. A ideia de montar uma empresa de Grama Sintética, foi a saída escolhida para mascarar a construção do túnel, foi de Mineiro. Grama mexe com terra, logo, ninguém estranharia se saíssem carros com sacas de areia da casa. A preocupação em não levantar suspeitas estava resolvida. Jorge criou o nome falso de Paulo Sérgio de Souza, arrumou uma carteira de identidade com fotografia 3x4 de gorro e registrou a empresa na Junta Comercial.

Criada a empresa, Jorge Luiz confeccionou camisetas e bonés com a logomarca do negócio para distribuir na vizinhança. A conquista dos vizinhos fazia parte do disfarce. Estava formado o grupo dos 36 autores diretos, incluindo “engenheiro” e “eletricista”, divididos de acordo com as afinidades: entre as escavações, a vigilância e a compra de material. Um deles assumiu o posto de cozinheiro e alimentava os colegas trabalhadores. A quadrilha alugou o imóvel na Rua 25 de março, 1071, a cem metros do Banco.

A casa virou escritório de fachada e o túnel começou a ser cavado nos fundos da propriedade, em uma edícula. Dali, espichando o corpo, era possível ver boa parte do prédio do banco.

Entre maio e junho de 2005, o túnel começou a ser escavado. A conclusão levou menos de três meses. A passagem tinha entrada disfarçada com uma tampa de taco, era equipado com sistema de refrigeração, iluminação artificial, ventiladores e lanternas de segurança, além de contar com 900 escoras de madeira com preenchimento de argamassa e segmentos de tubos de cimento. Aproximadamente seis metros separavam uma lâmpada da outra. Quando os bandidos ligavam o interruptor, o túnel inteiro se iluminava. “Parecia uma cidade”, disse Rafael.

Galeria do Túnel

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O trabalho de escavação costumava ser feito pelos mesmos grupos, na maioria cearenses. Nem todos os membros do bando se aventuravam. Alguns tinham fobia e preferiam trabalhar com outros serviços na casa.

A rotina dos trabalhadores da passagem subterrânea tinha início às 20h. Primeiro, Rafael e os colegas ligavam o ar-condicionado e acionavam a iluminação artificial. Em muitas ocasiões, ele descia os três metros de entrada do túnel, pela escada, com gatorade na mão. Embora a temperatura no interior do túnel fosse agradável, era preciso se manter hidratado. A casa tinha vários freezers e, quando Rafael ou os companheiros estavam com sede, bastava pedir ao “porteiro” do túnel. Era só escolher: descia gatorade, suco e água gelada.

OS TOUPEIRAS

Quadrilha tinha integrantes naturais de São Paulo e do Ceará

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A escavação era levada a sério pelo grupo, com uma rotina de trabalho estabelecida para cumprir o cronograma. Não havia abertura nem para uma cerveja nas horas vagas na casa. “Cerveja, não. Lá estávamos a trabalho, então era para trabalhar.” Os homens largavam o turno às 4 horas da manhã e punham a mão na terra somente de segunda à sexta. Sábado e domingo eram dias de folga. “A gente sempre dizia: tem que ter união. Se não tiver, ninguém vai para lugar nenhum. A união faz a força”, conta Rafael.

Uniformizados com a roupa da empresa e protegidos com luvas nas mãos, os bandidos utilizaram pás para remover a terra, que esbarrancava próximo ao tambor de plástico cortado ao meio. Amarrado por duas cordas, uma de cada lado do tambor, o “veículo” servia de transporte na remoção do material. No solo, uma lona estirada facilitava o deslize.

A terra se deslocava, dentro do recipiente, até a entrada do túnel, onde parte da equipe trabalhava para separar em sacas. Por meio de uma roldana subiam o material. Depois, o tambor era puxado de volta pelos homens que estavam no túnel.

Com o trabalho durante a noite, não havia preocupação em fazer barulho e levantar suspeitas da vizinhança. Três metros abaixo do nível do solo, os sons não vazavam. As estacas garantiram segurança aos trabalhadores, que passaram a não temer mais os desmoronamentos. “Depois que botamos as tábuas, pegamos confiança. As tábuas tinham o encaixe certinho”, relata o ladrão. O medo do desastre deixou de ser uma constante, mas não estava descartado. “Às vezes, passava carreta ali, chega tremia tudo e a terra caía.”

A poucos metros do piso da caixa-forte, a quadrilha se deparou com a primeira surpresa: havia uma rede de esgoto que não deveria passar ali. Não constava nas plantas obtidas pelo grupo. Antes de perceber o que era, um dos escavadores furou a tubulação, que rompeu e espirrou no grupo. Às pressas foi tapado.

E agora? Pedestres caminhavam na calçada da Avenida Dom Manuel logo acima das cabeças do grupo. Primeiro, o bando tentou fazer uma mudança de nível, contornando a tubulação por baixo. Desembocaram na água e desistiram. Teriam de subir as escavações em alguns centímetros para continuar o trajeto acima do esgoto. Com isso, o túnel ficou mais próximo da superfície, sofrendo a influência e vibração do tráfego de veículos da avenida. Como o terreno é arenoso e o risco de desmoronamento, iminente, os criminosos utilizaram quatro segmentos de tubo de aço para transpor o obstáculo.

Xeque mate. Ao alcançar a região da caixa-forte, os ladrões estavam a 1,1 metro de distância de concreto armado do alvo. Desenharam um “X” no teto do túnel e deram início à segunda parte das escavações. “Com a máquina, disseram ‘é aqui em cima, então, vocês têm que furar aqui embaixo’. Marcamos certinho, indicando que era ali, e começou”, descreve o ladrão.

Para transpor a laje da caixa-forte, os infratores tiveram de adaptar. O receio era de que uma perfuração desajeitada acionasse os sensores de impacto do cofre. O grupo utilizou uma serra portátil circular elétrica, com disco diamantado, auxiliado por furadeira elétrica manual. A serra, segundo Rafael, foi importada de Israel. Isso porque o concreto era especial e os equipamentos mais comuns no Brasil não furavam. “Essa que veio com os dentes de diamante levava duas horas para trabalhar, mas a ‘bicha’ entrava e parece que estava cortando isopor”. Os pedaços caíam, aos poucos, e os ladrões retiravam.

A quadrilha conseguiu romper o concreto e entrar na caixa-forte do Banco Central por volta das 21h de sexta-feira, dia 5 de agosto de 2005. Em depoimento à Justiça Federal do Ceará, quatro anos após o furto, Alemão conta que o grupo sabia que muito dinheiro seria furtado, mas não fazia ideia de quanto. Havia bilhões na caixa-forte.

Alemão e mais três ladrões entraram no cofre e passaram a procurar as notas não seriadas, alvo do furto. Era fácil diferenciar: o dinheiro novo era empacotado. “Era dinheiro velho para incineração. Não podíamos mexer no novo porque o cara já tinha falado que ele era tudo seriado. Sequência de série, né? Não podia pegar. Tinha de pegar aquele velho”, explica Rafael.

A caixa-forte estava iluminada e dispensava o uso de lanternas. O quarteto teve o cuidado de andar rente às paredes, evitando os sensores de movimento, até chegar aos contendores desejados. A retirada das cédulas teve início às 22h e foi concluída somente às 6h do dia seguinte, dia 6 de agosto.

O dinheiro foi colocado nos tambores cortados ao meio, usados anteriormente para retirar terra. Os outros companheiros puxavam as notas por toda a extensão do túnel, com auxílio de roldanas. A decisão de cessar a retirada do dinheiro foi conjunta, disse Alemão.

À medida que as notas eram retiradas, às pressas, o clima era de tensão entre os homens responsáveis pela segurança da ação. Dois ladrões armados dentro da casa e quatro do lado de fora, nas ruas do entorno, estavam posicionados com a ordem de apertar o gatilho, caso fosse necessário. Em poucas horas, terminaria a primeira parte do trabalho: a escavação do túnel. Até então, tudo havia dado certo para o grupo. De agora em diante, ia ser a fuga. Seria cada um por si e a polícia atrás de todos.

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