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ENTRE QUIXADÁ E FORTALEZA, TRAJETO PERCORRIDO EM
"O QUINZE" POR CHICO BENTO, OS AÇUDES ESTÃO QUASE VAZIOS.
EM 2015,O CEARÁ VIVE O QUARTO ANO CONSECUTIVO DE SECA
Caminhada. A rodovia CE-060 liga Quixadá a Fortaleza, trecho que, na ficção, foi feito a pé, em caminho de terra, por Chico Bento
Passados cem anos da grande seca de 1915, retratada por Rachel de Queiroz no romance “O Quinze”, lançado em 1930, o sertão central do Ceará ainda sofre com a falta de chuva. A região está no quarto ano de estiagem intensa. Os açudes e barragens estão em níveis baixos, as cisternas instaladas nas casas das famílias de baixa renda, que ajudam a aliviar a falta de água, já não são suficientes para o abastecimento.
No livro, o vaqueiro Chico Bento parte com a família, a pé, para Fortaleza, depois de ser dispensado pela dona da fazenda onde trabalhava. O Estado percorreu o caminho descrito por Rachel de Queiroz. Embora sofram com a seca, as cidades têm benefícios pelo fato de estarem próximas da capital. A rodovia estadual está em bom estado, há empreendimentos imobiliários em andamento. Na zona rural, no entanto, as famílias lamentam a baixa produção de milho e feijão que, este ano, serviu no máximo para consumo próprio. Entre os muito pobres, o Bolsa Família é a única renda fixa mensal.
TOQUE PARA LERJornal noticiou a seca no Ceará em 10 de agosto de 1915
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Na ficção, o protagonista Chico Bento, vaqueiro dispensado pela patroa que não tinha como manter os empregados, diante do estrago causado pela seca, parte de Quixadá para Fortaleza, a pé. O ponto de partida é a localidade hoje chamada Daniel de Queiroz, a cerca de 160 quilômetros de Fortaleza, onde até hoje está a fazenda da família de Rachel de Queiroz, chamada “Não me deixes”. No livro, Chico Bento trabalhava na fazenda Aroeiras, nome fictício. Ele parte com a mulher, a cunhada e cinco filhos.
Lavoura. Paulo Sérgio, a mulher e os filhos sofrem com a seca na periferia de Quixadá: "não cheguei a fazer um saco de feijão"
DESALENTO E ESPERANÇA
EM QUIXADÁClique e assista ao videoMorador do distrito de Juatama, em Quixadá, Paulo Sérgio Alexandre Ferreira, de 44 anos, passa dificuldades com a cisterna quase vazia. Ele vive com a mulher, Zélia, de 37 anos, e cinco filhos em uma casa precária, de barro, sem água encanada e raros móveis. Quase todo dia, alguém busca água na cacimba mais próxima. “Não cheguei a fazer um saco de feijão”, lamenta Paulo Sérgio, que tem um roçado atrás da casa. Apesar das dificuldades, o Chico Bento de 2015 não pensa em sair em busca de outras oportunidades. A família recebe R$ 190 mensais do programa Bolsa Família, a única renda garantida. “Não gosto de cidade. A gente só vai lá por precisão”, afirma.
No mesmo município de Quixadá, outra história é de esperança. A seca que devasta as plantações e obriga famílias a buscarem água em cacimbas e poços distantes de casa também cria oportunidades para um grupo de jovens do distrito de Juatama. Por causa da falta de chuva e dos ventos fortes, Quixadá tornou-se um dos melhores locais do mundo para o voo livre. No inverno, atletas de vários países chegam à cidade, na expectativa de baterem o recorde de voo em linha reta batido na própria cidade. Os pilotos passaram a chamar jovens da região para ajudarem na montagem de equipamentos, dirigirem as caminhonetes e colaborarem no controle dos voos. Aos poucos, eles aprenderam a voar e hoje são também instrutores.
A Associação de Voo Livre do Sertão Central já reúne 24 jovens, que estimulam as crianças a também se interessarem por decolagens e pousos. “Em 1998, 12 meninos foram contratados para ajudar os que chegavam a Quixadá para voar e começaram a sonhar em voar também. Eu era um desses meninos. Graças a Deus, no meio das dificuldades da seca, uma janela se abre e surge uma oportunidade”, diz Diego Oliveira Dantas, de 26 anos, um dos rapazes que trabalham com voo livre em Quixadá. Na semana em que o Estado esteve em Quixadá, um dos grandes nomes do voo livre do País, Luiz Henrique Tapajós Antunes dos Santos, o Sabiá, estava na cidade, onde gravou parte do documentário que estrela para um canal fechado de TV. Sabiá e seus companheiros usaram os serviços de Diego e outros monitores locais.
Município que em 1915 era um povoado chamado Castro, parte da cidade de Baturité. No livro, foi no Castro que bateu pela primeira vez a fome na família.
Chico Bento consegue trocar uma rede por farinha e rapadura.
Também no Castro, Mocinha, irmã de Cordulina, mulher de Chico Bento, decide abandonar o grupo.
Na casa de Vera Lúcia de Almeida Ferreira, de 39 anos, não há água encanada. A cisterna instalada pelo governo do Estado está praticamente vazia. Ela busca água no rio próximo para lavar roupa e cozinhar. Recebe R$ 194 mensais do Bolsa Família para sustentar o casal e dois filhos. A cada dois meses, gasta R$ 50 com um botijão de gás. A conta de luz está em torno de R$ 26 mensais. “Antes eu pagava entre R$ 12 e R$ 15 de luz. Agora que inventaram essa bandeira vermelha, está o dobro. Daqui a pouco, o dinheiro vai todo para gás e energia”, preocupa-se Vera Lúcia. No dia 20 de agosto, uma quinta-feira, Vera Lúcia teve que gastar R$ 6 para mandar a filha Verilane, de 12 anos, para a escola. O ônibus escolar quebrou e a solução foi pagar uma van para levar e um mototáxi para trazer a menina para casa. No dia 21, Verilane não foi à escola. “Agora vou ter que esperar o ônibus consertar, não dá para gastar esse dinheiro todo dia”, afirmou Vera Lúcia.
Perto dali vive Antônio Osvaldo Gomes de Souza, de 40 anos. O filho Erison, de 9, só não perdeu as aulas porque Antônio levou e pegou de bicicleta. O menino depende do mesmo ônibus escolar com defeito. A Bolsa Família que sustenta Antonio, a mulher, Adriana, e o filho é de R$ 164 mensais.
Espera. Sem água encanada, Vera Lúcia aguarda a chegada de caminhão pipa para abastecer a cisterna quase vazia
Em algum ponto não definido deste município, Josias, um dos filhos de Chico Bento e Cordulina, morre intoxicado, depois de comer um pedaço de manipeba, um tipo venenoso de mandioca.
Foi também em Baturité que o vaqueiro decidiu vender a mula que acompanhava a família na travessia, Limpa-Trilho.
Já no fim do livro, Baturité volta em outra cena trágica. Dona Inácia, moradora que Quixadá que passara uma temporada em Fortaleza com a neta, Conceição, está no trem de volta para casa. Na estação de Baturité, se surpreende com uma moça que chama por ela. Era Mocinha, a cunhada de Chico Bento que decidira tentar a vida no Castro. Não deu certo.
Auxiliar de serviços gerais da rede pública de educação, Maria de Carvalho Félix, de 69 anos, vive com três filhas e seis netos em uma casa confortável próxima à antiga estação de trem de Baturité, hoje transformada em museu. Conseguiu comprar uma antiga casa da Rede Ferroviária, tem água encanada e planeja, um dia, construir um andar de cima para abrigar melhor a família. “O trem era o transporte dos pobres, eu viajava para Juazeiro quase toda semana, para visitar minha mãe. Isso aqui (a antiga estação) vivia cheio, de passageiros e de gente vendendo frutas, macaxeira. Era muito bonito”, diz Maria, ao lado da filha Alexandra, de 38 aos, também auxiliar de serviços gerais da rede escolar e da neta Ana Clara, de oito anos. “Este ano a seca está grande, mas ainda temos água, se Deus quiser não vai faltar. Na seca de 1984, a torneira secou. Quando chegavam os caminhões pipa, era uma correria para garantir água”, lembra Maria.
Passado. Maria vive com três filhas e seis netos em frente à estação desativada: saudade dos tempos da linha férrea
Já perto de Fortaleza, a uma distância de cerca de 50 quilômetros, a família vive novo drama. Chico Bento e Cordulina descobrem que Pedro, o filho mais velho, tinha desaparecido.
É em Acarape que o que restou da família – Chico Bento, Cordulina e três filhos – finalmente consegue embarcar no trem para Fortaleza. O delegado de Acarape, Luís Bezerra, compadre de Chico Bento, padrinho de Josias, já morto, não consegue encontrar Pedro, mas paga as passagens para os retirantes concluírem a viagem.
Auxiliadora Silva Oliveira Rodrigues, de 36 anos, e Francisca Iraneide Pereira de Lima, de 42, são vizinhas na periferia de Acarape, na beira da estrada que leva a Fortaleza. Em frente às casas pobres onde vivem, vendem frutas e verduras que compram na feira. Os clientes são, na maioria, motoristas que passam pela rodovia estadual. Há três anos, chegou água encanada na localidade onde moram. A vida mudou para melhor, embora a pobreza não tenha aliviado. “Se Deus usar de misericórdia, não vai faltar água”, diz Auxliadora. A última chuva, lembra o marido dela, Édio Ferreira, presbítero da Assembleia de Deus, foi no dia 17 de julho.
Memória. À beira da CE-060 Francisco, de 70 anos, lembra as muitas secas da região: "a pior foi a de 1970"
Francisca vive com o marido, Francisco Vitorino da Silva, e seis filhos, de 5 a 24 anos. Recebe “trezentos reais e uns quebradinhos” de Bolsa Família, a única renda fixa. “Tem dia ruim, que a gente não vende mais que R$ 10. Outros são melhores, dá para vender, R$ 30, R$ 40. Antigamente, a gente tinha que buscar água na cacimba, levava na cabeça”, lembra Francisca.
Na mesma estrada onde vivem Auxiliadora e Francisca, o lavrador Francisco Lopes da Silva segue em direção ao distrito de Antônio Diogo, no município de Redenção, onde mora. Nunca teve abastecimento direto em casa e, mesmo em tempos de chuva, tem de buscar água no poço. Aos 70 anos, tem a memória de muitas secas no sertão central do Ceará. “Do que me lembro, a pior foi a de 1970, mas sofremos muito também na de 1958”, diz.
Na etapa final do livro, Chico Bento e a família desembarcaram em Fortaleza, na Estação do Matadouro, que depois passou a se chamar estação Otávio Bonfim e hoje, é uma ruína cheia de lixo em volta.
Da estação, o casal e os filhos foram direto para o campo de concentração do Alagadiço. Muito antes da Segunda Guerra, no Ceará já se usava o termo campo de concentração, que designava o local que concentrava os flagelados, distribuía comida. Os retirantes se ajeitavam pelos cantos e saíam em busca de trabalho ou partiam para o Norte, para trabalhar no cultivo da borracha, ou para o Sudeste. Os campo de concentração foi criado para evitar que os retirantes se espalhassem pela capital e chegassem às áreas nobres, em busca de esmolas e trabalho.
O Alagadiço é hoje a parte mais pobre do bairro Otávio Bonfim, também chamado Farias Brito. É uma área carente e violenta.
A personagem Conceição, professora nascida em Quixadá que vivia em Fortaleza, é voluntária do Campo de Concentração e madrinha de Duquinha, um dos filhos de Chico Bento e Cordulina. Conceição convence Cordulina a deixar Duquinha com a madrinha e passa a criá-lo.
Chico Bento, Cordulina e os dois filhos que restaram partiram no porto de Fortaleza para São Paulo.
Alagadiço. Da janela de seu bar, Ramiro vê a estação e
o terreno onde funcionou o campo de concentração
Funcionário da Rede Ferroviária entre 1976 e 1998, Ramiro Casimiro Barreto, de 67 anos, agora aposentado, mora e trabalha no pequeno bar aberto por ele em frente à estação desativada de Otávio Bonfim, que em 1915 se chamava Estação do Matadouro, por causa da proximidade de um abatedouro de animais. Ramiro ouviu falar da grande seca daquele ano, mas não conhece “O Quinze” nem a triste história do campo de concentração. Da janela de seu bar, avista o abandono da antiga estação e a comunidade que hoje ocupa o Alagadiço. Apesar da violência que domina a região onde há cem anos funcionava o acampamento dos flagelados, Ramiro diz que “é um bom lugar para morar”. Mas lamenta o fim da ferrovia. “Cansei de pegar o trem para Baturité. Depois essa linha acabou e ficou o trecho Fortaleza-Maracanaú, até 2011. Mas aí acabaram com o trem do interior e entraram os empresários de ônibus. Depois fizeram o metrô e isso aí é o que restou da ferrovia”, diz Ramiro.