Microcefalia é uma condição rara em que o bebê nasce com uma cabeça pequena ou a cabeça para de crescer após o nascimento. Se essa má-formação se combinar com o baixo crescimento do cérebro, a criança pode ter o desenvolvimento motor e também intelectual prejudicados.
Como é feito o diagnóstico?
A maneira mais confiável para avaliar se um bebê tem microcefalia é medir o perímetro cefálico 24 horas após o nascimento e comparar com os padrões de crescimento da OMS - hoje são considerados suspeitos casos de cérebros menores ou iguais a 32 centímetros. A confirmação depende de exame de tomografia. É ele que vai mostrar se há lesão no cérebro e calcificações. Vale ressaltar que há crianças que nascem com diâmetro de cabeça abaixo de 32 centímetros e têm o desenvolvimento normal.
Está confirmada a relação entre zika e microcefalia?
Estudos publicados nos últimos dias identificaram a presença do vírus no cérebro de bebês com microcefalia que morreram após nascer e em fetos abortados. Também foi localizado o vírus no líquido amniótico de gestantes e num grupo de 12 bebês com microcefalia foi detectada a presença de anticorpos para o zika no líquido cefalorraquiano, encontrado no crânio e na medula espinhal. Estudos constataram ainda que o vírus é capaz de atravessar a placenta. Todos esses indicadores apontam correlação entre o vírus e o problema e, para alguns pesquisadores, não existe mais dúvida de que o zika está causando isso. Mas outros cientistas pedem cautela e mais estudos que mostrem exatamente como seria a ação do zika no desenvolvimento do cérebro.
Que tipo de estudo é preciso fazer para ter certeza?
É preciso confirmar como e por que o vírus age do jeito que se imagina que ele age. A única forma cientificamente válida de testar essa relação é reproduzindo a situação em laboratório, com a inoculação do vírus zika no cérebro de animais e em culturas de células neuronais humanas para ver se ele de fato interfere no seu desenvolvimento. Equipes do Rio e de São Paulo estão fazendo esses estudos. Outras pesquisas vão acompanhar grávidas. Uma delas, da USP de Ribeirão Preto, vai monitorar 3.000 mulheres. Elas serão submetidas, mensalmente – até o parto – a um exame de sangue que detecta anticorpos do vírus tanto na mãe quanto no bebê, para mostrar se e quando o feto é infectado durante a gestação.
Pode estar ocorrendo uma supernotificação de casos?
Antes de os primeiros casos em Pernambuco começaram a aparecer no final de agosto do ano passado, levantando a suspeita entre zika e microcefalia, não havia notificação compulsória no Brasil da má-formação cerebral. Em 2014, por exemplo, foram registrados somente 147 casos. Diante do novo risco, todo bebê nascido com perímetro cefálico menor ou igual a 32 centímetros começou a ser notificado. Em poucos meses, por causa disso, o número saltou para a casa dos milhares. O Ministério da Saúde informou que até a última sexta-feira houve 4.783 notificações. Muitos desses bebês, porém, podem ser saudáveis (sem ter lesões ou calcificações no cérebro). Tanto que 765 casos foram descartados como não sendo microcefalia. 3.852 casos estão sob investigação e 462 foram confirmados. Entre estes casos, em 41 houve relação com zika. Ou seja, nesses bebês foi detectado o vírus, mas não foram descartadas outras possíveis causas. Essas crianças não foram testadas, por exemplo, para outros vírus relacionados a microcefalia, como rubéola. Os outros 421 ainda estão sendo testados para o vírus.
Mesmo se essa relação for confirmada, o que mais é preciso saber sobre o risco aos bebês?
Ainda não se sabe em qual momento da gravidez existe mais perigo. Suspeita-se que seja no primeiro trimestre. Tampouco se sabe por quanto tempo depois que uma mulher foi contaminada ela ainda pode passar o vírus para feto. Especialistas afirmam, porém, que as chances são pequenas, já que o feto só poderia ser infectado durante a fase ativa da doença. Outra dúvida é se uma pessoa contaminada uma vez pode se contaminar de novo. Por enquanto acredita-se que não, que a pessoa uma vez contaminada fica imune. Mas como a circulação do vírus é nova, não há certeza.
Se a microcefalia for constatada ainda no pré-natal, é possível fazer alguma intervenção para barrar ou reverter a má-formação? Em que medida é útil fazer mais ultrassons?
Não há intervenção possível. Os exames de imagem apenas confirmarão as suspeitas da má-formação, pois o diagnóstico final é dado após o nascimento. O que a gestante deve fazer é manter toda a rotina do pré-natal com especial atenção, já que a gestação passará a ser classificada como de alto risco, exigindo acompanhamento de referência.
Depois que o bebê nasce com microcefalia, o que é possível fazer para melhorar o desenvolvimento da criança?
Especialistas afirmam que um tratamento multidisciplinar deve ser iniciado o mais rápido possível, assim que o bebê tiver alta da maternidade. Ele prevê acompanhamento de fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos, médicos e assistentes sociais. Se o incentivo começar cedo, as crianças podem andar, falar, comer, se vestir, estudar, enfim, levar uma vida praticamente normal. Mas tudo depende do grau da microcefalia. Nos casos mais severos, como os relacionados ao zika vírus, tanto o desenvolvimento motor, como intelectual, podem ser prejudicados de forma definitiva.
Uma mulher que já teve zika pode vir a ter filhos com microcefalia no futuro?
Não se sabe ainda, mas especialistas afirmam que as chances são pequenas, já que o feto só poderia ser infectado durante a fase ativa da doença. Desse modo, a mulher não 'armazenaria' o vírus para transmiti-lo durante uma futura gestação.