Entrevista: ‘Redentores políticos são charlatães, canalhas ou loucos’, diz britânico Theodore Dalrymple

Um dos principais intelectuais conservadores da atualidade, autor alerta para os perigos de colocar as esperanças nos políticos

Por Andre Klojda

Theodore Dalrymple é um dos principais autores conservadores da atualidade. Foto: Martim Haefliger/Divulgação – 27/10/2016

O britânico Anthony Daniels, conhecido pelo pseudônimo Theodore Dalrymple, é um dos principais intelectuais identificados com o pensamento conservador na atualidade. Autor de títulos como Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e do recém-lançado Evasivas Admiráveis – Como a Psicologia Subverte a Moralidade, Dalrymple critica a ideia de redenção por meio de política e os que se colocam na posição de possíveis redentores. “O melhor que se pode esperar dos políticos é que não sejam tão ruins.”

Dalrymple também diz que seria interessante se os políticos conseguissem entusiasmar os eleitores apresentando metas mais modestas. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Algumas pessoas veem políticos como heróis que devem ser responsáveis por algum tipo de restauração ética e moral. Por quê?
O melhor que se pode esperar dos políticos é que não sejam tão ruins e, no fim das contas, façam mais bem do que mal. Colocar as esperanças ou a fé nos políticos é tolice, mesmo em sistemas consideravelmente mais estabelecidos e estáveis do que o do Brasil. A redenção por meio da política não é possível, e os redentores políticos são charlatães, canalhas ou loucos. Temos sorte se forem seres humanos razoavelmente decentes. Mas os demagogos sempre têm seus seguidores e esperanças irrealistas nos políticos são uma manifestação do eterno desejo do homem de grande melhoria súbita. Não acredito que seja algo específico do nosso tempo.

No Brasil, muito tem se falado de uma onda conservadora. Por que acha que os conservadores são, às vezes, vistos como uma ameaça?
Os conservadores são frequentemente vistos como uma ameaça porque têm uma visão de mundo diferente da dos radicais. Eles não acreditam na perfeição do homem nem veem a política como uma questão de aplicar doutrina aos assuntos atuais, e não acreditam que o mundo possa ser feito de novo – pelo menos não sem uma grande quantidade adicional e evitável de sofrimento. Acreditam na modéstia e na prudência, e que muito do passado vale a pena ser apreciado. Claro, há uma espécie de conservadorismo teimoso, que resiste a quaisquer mudanças e nega a possibilidade de melhoria, mas isso é tolice.

Tradições religiosas devem ser consideradas quando entramos no âmbito mais prático da política? As pessoas devem considerá-las ao participar do processo político?
No geral, não gosto de misturar religião e política. Eu sou um secularista. A teocracia é uma das formas mais desagradáveis de governo. Mas a religião tem muito para nos ensinar, não gosto do anticlericalismo militante. A política prudente não deve ofender o sentimento religioso muito difundido, mas tampouco deve ser totalmente guiada por ele.

O que diria para quem deseja ser politicamente bem informado e fazer boas decisões ao escolher seu candidato nas eleições?
Nunca tendo sido um político na prática, e não conhecendo o País, não posso dar conselho aos brasileiros. Seria bom se os políticos pudessem encontrar um jeito de entusiasmar as pessoas com metas modestas. Do que se lê do exterior, que pode ser distorcido, uma característica muito importante para os políticos seria a probidade pessoal: talvez homens e mulheres de idade avançada, prósperos, mas não extremamente ricos, que nunca tenham mostrado avidez por vasta riqueza ou propensão a considerar a si mesmos como salvadores.

Seus livros têm sido publicados no Brasil e você esteve aqui recentemente. Como espera que seu trabalho seja útil no debate público?
Muito me surpreendeu que meus livros tenham sido publicados no Brasil, e até vendido algumas cópias. Meu palpite é – embora eu não conheça o Brasil bem o suficiente para ter certeza – que meus livros sugerem uma maneira muito diferente de conceber os problemas sociais do que a habitual no Brasil. Eu não gostaria que usassem meus livros como um novo tipo de evangelho, mas espero que, ao apresentarem um ponto de vista diferente, encorajem os brasileiros a pensarem sobre seus próprios problemas.