O Brasil tem 8,9 milhões de pessoas com mais de 50 anos que passaram a vida sem saber ler ou escrever. E o número só vai crescer nos próximos anos, dado o rápido envelhecimento da população. A Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem papel determinante na absorção dessa população, que não deu continuidade aos estudos. Porém, ela atende hoje pouco mais de 316 mil pessoas nesta faixa etária.

Luiza Pires é uma delas. Aos 67 anos, a copeira está cursando o ensino fundamental em uma unidade de EJA de Santa Cecília, em São Paulo. “Estou aprendendo bastante coisa, mas os livros são muito infantis. A minha neta, que também está na 5ª série, conseguiria ler”, explica. “Pedem para a gente fazer um desenho, depois temos que colorir e fazer um texto sobre ele.”

A inadequação do material ao público é uma das principais críticas feitas ao programa, oferecido em instituições públicas e privadas. “O currículo é basicamente igual ao da escola regular. Esses jovens e adultos precisam de educação que seja relevante para o mundo em que vivem”, afirma o ex-diretor nacional de EJA do Ministério da Educação (MEC), entre 2004 e 2007, Timothy Ireland. Defensor do projeto, ele acredita que o programa perdeu sua relevância social ao longo dos anos. Para que o processo de educação seja proveitoso, Ireland pensa que as experiências e os interesses dos alunos devem ser colocados no centro do processo de aprendizagem. Mas isso nem sempre acontece.

O professor de ciências da EJA do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, Felipe Bandoni, entende essa necessidade. Percebendo que os alunos preferem falar de saúde em vez de tópicos do currículo básico da disciplina, ele privilegia o tema. Na prática, porém, ele diz que poucos colegas de profissão estão preparados para lidar com esse público. “A maioria trabalha no ensino regular e completa a jornada lá, como uma espécie de bico. A EJA demanda uma especialização, um olhar especial e um material específico.”

Em alguns casos, esse material nem chega às mãos dos alunos, como aconteceu com Domerina Firmino, que está no terceiro ano do ensino fundamental da EJA do Colégio Linneu Prestes. “Ano passado, deram lápis, caneta e caderno. Neste ano, não. O professor escreve a lição na lousa e nós anotamos.” A direção da unidade diz que devido à mudança no número de alunos de um ano para o outro acaba faltando material. A previsão, de acordo com a escola, é de que os novos itens cheguem no começo do segundo semestre.

O aluno da oitava série da EJA do CEU de Parelheiros Carlos Araújo, de 65, também ficou sem material neste ano. O aposentado teve de arcar com os custos dos itens escolares básicos. “Não nos explicaram nada. Ano passado tinha caderno. Hoje, estamos usando o que a gente compra.” De acordo com a Diretoria Regional de Educação, os materiais foram entregues em fevereiro. A entidade diz ainda que, dependendo da data de ingresso do estudante, ele pode ter ficado sem.

Além da oferta de livros de alfabetização infantil, a infraestrutura das salas de aula não é adequada para o público. Em muitos casos, os alunos estudam nas carteiras que as crianças usaram durante a manhã. De acordo com Ireland, essa situação gera constrangimento a adultos e idosos.

Ele vê nessas dificuldades a razão para a queda de inscritos nos últimos anos. “De 2007 para cá, o EJA perdeu 1,5 milhão de matrículas. Neste período, a própria política de alfabetização deveria ter estimulado o aumento”, afirma. Como resposta, porém, municípios e Estados têm fechado salas de aula e criado polos de EJA. Para o ex-diretor, essa medida tende a afastar ainda mais os alunos, que, em sua grande maioria, estão inseridos no mercado de trabalho e veem na distância um desestímulo. “Há uma relação inversa do que há de desafios e o recurso direcionado para responder."

Para este ano, a dotação orçamentária do MEC para a abertura e manutenção de turmas tanto da EJA como do ProJovem, assim como para apoiar os programas já existentes, é de R$ 238,6 milhões. O valor é inferior ao destinado aos programas nos últimos anos. Em 2016, foram investidos R$ 391 milhões, enquanto em 2015 a cifra foi de R$ 322 milhões. “A pasta investe muito em formação de docentes e material didático”, diz a atual secretária de EJA da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do MEC, Ivana de Siqueira.

Ela, porém, reconhece que há problemas. “A gente sabe que tem escolas que ofertam esse tipo de educação em lugares inapropriados. Se o MEC fica sabendo, ele tem de tomar providência.” Apesar disso, ela acredita que não cabe à pasta ficar recebendo denúncias de todas as irregularidades do programa. “O MEC não é órgão de controle e fiscalização, mas, sim, formulador de políticas e indutor de programas e ações. Quem faz a oferta são os Estados e municípios.” Ficaria a cargo do Ministério Público do Estado e do Tribunal de Contas do Estado fazer essa inspeção.

Intergeracionalidade

Uma questão muito discutida entre os especialistas em educação é a presença de alunos de diferentes idades nas mesmas salas de aula. Para Ireland, a capacidade de conviver com pessoas de diferentes idades é fundamental. Mas, como os idosos têm outros objetivos, é preciso haver oferta de atividades para eles. “Não podemos criar guetos, isso é ruim para pessoas idosas e jovens. Precisamos achar metodologias, o jovem tem muito a aprender com as pessoas idosas e vice versa.”

Domerina, da EJA do Colégio Linneu Prestes, acredita que cada estudante tem um jeito diferente de aprender. “É gostoso estudar junto com outras pessoas, ver as dificuldades delas. Sinto que a nossa sala, onde a aluna mais nova tem 30 anos, é mais calma. Queremos estudar e aprender.”

A gerontóloga Anita Neri não considera uma boa ideia juntar diferentes faixas etárias na mesma sala de aula. "Não dá para achar que é bom colocar idosos junto aos adultos e jovens. A metodologia de alfabetização é diferente para cada grupo", diz. "A ideia não é segmentar, mas dar tratamento específico e adequado que o idoso merece. Isso é igualdade e não misturar todo mundo no mesmo lugar."

Com os mais jovens e os mais velhos estudando lado a lado, os interesses dos idosos acabam ficando em segundo plano, diz o professor Bandoni, do EJA do Colégio Santa Cruz. “O aluno de 20 e poucos anos pensa em prestar Enem. O velho, não. Se o professor insiste em fazer perguntas relacionadas ao vestibular, por exemplo, isso acaba sendo desmotivador.”

Ainda que seja a favor do convívio das diferentes gerações na escola, ele admite que há desafios. “Em alguns casos, os mais velhos enfrentam bullying dos mais novos. Provocações como ‘o que você está fazendo aqui?’ e ‘tiozinho, vai para casa”.

A geriatra e integrante do Conselho Estadual do Idoso de Minas Gerais, Karla Giacomin acredita que a promoção da educação de intergeracionalidade é justamente o caminho para reverter esse preconceito. “Enquanto criança ficar com criança, adolescente com adolescente e idoso com idoso, a gente não vai entender essa vida como um processo de envelhecimento.”

Dona Elza Aparecida Moreira, de 57 anos, aluna da oitava série do Cieja Perus I, diz que é preciso ter empatia. “Me dou bem com todo mundo. Tem aluno de 16 anos na minha sala, tenho que me colocar no lugar deles. Se estão lá, por algum motivo também pararam de estudar.”

O futuro da EJA

A demanda de educação para pessoas idosas tende a crescer com o movimento demográfico brasileiro. De acordo com Ireland, as pessoas estão envelhecendo mais saudáveis e com vontade de continuar vivendo e, entre as suas demandas, existe educação. “Daqui a dez, 20 anos, o número de pessoas vai ser potencialmente muito grande e os Estados e municípios não vão estar preparados para dar uma resposta.”

Antes disso, na visão de Ivana de Siqueira, é preciso reduzir os índices de evasão escolar. “São jovens que não vão concluir educação básica e, depois, vão cair na EJA. Precisamos fechar essa torneira para diminuir a evasão e a distorção idade-série.” Por isso, aposta na continuidade do programa. “Sinceramente, não acredito que vamos conseguir nos livrar da EJA nem nos próximos dez anos. Temos um número enorme de analfabetos e metas a cumprir no Plano Nacional de Educação.”