Vídeos ao vivo estendem propagandas políticas às redes sociais

Entenda como são construídas essas transmissões e o que cada escolha pode representar

Por Cássia Miranda e Júlia Belas

Reprodução de vídeo do Político em Construção/Estadão

Ferramentas de transmissões ao vivo são uma das apostas dos marqueteiros para as propagandas políticas das eleições de 2018. Os vídeos ao vivo do Youtube, o Periscope do Twitter e o Live do Facebook devem levar as campanhas às timelines dos eleitores. Por isso, de acordo com especialistas, as produções têm de fisgar a atenção de quem está do outro lado da tela – e pode fechar a página e deixar de assistir com um clique.

Segundo o pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) Rodrigo Carreiro, os vídeos são o produto de maior destaque nas redes sociais. Já que o Facebook é a rede mais acessada pelos brasileiros, as campanhas devem se concentrar na plataforma. “Tem aquela máxima que diz que o político vai aonde o povo está, e as pessoas estão no Facebook.” Para Carreiro, transmissões ao vivo serão utilizadas para apresentar os bastidores da campanha e aproximar o candidato do eleitor. “O principal ponto é mostrar ações que são interessantes para o público, além de humanizar o político.”

Estética

Enquanto as produções de TV são pensadas para aproveitar ao máximo o curto tempo disponível, características que dão um tom mais natural ao candidato são as mais procuradas em uma transmissão online. O publicitário Daniel Braga garante que erros de gravação, hesitações e até uma gravata desalinhada ou o cabelo desarrumado são aceitáveis. “A pessoa tem de sentir que é real, que não é fake, que é espontâneo”, explica Braga, coordenador das redes sociais do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). A transparência, para ele, é essencial para desassociar o candidato da chamada velha política. “As pessoas estão cansadas dos mesmos nomes, das mesmas soluções e dos mesmos discursos.”

A construção dessa persona mais informal passa também pela linguagem utilizada. Enquanto em discursos os candidatos apostam na intensidade, nas transmissões ao vivo os candidatos reduzem o tom. Mas eles ainda apelam aos sentimentos para garantir a atenção do público. “Naturalidade e emoção dão apoio importante para que o político tenha credibilidade”, aponta o especialista em oratória, Reinaldo Polito. Dependendo de onde a gravação for realizada, os movimentos também são calculados. Em espaços fechados, por exemplo, os gestos são menos amplos. “Assim ele demonstra mais controle, poder e domínio sobre o que está falando.”

Da mesma forma, a renovação virá nos figurinos. A consultora de estilo pessoal, Roberta Polito, afirma que, por causa da crise de credibilidade, candidatos podem tentar se afastar dos cortes conservadores que são associados à política. “O candidato com novas ideias pode fugir das referências e dos padrões que associam sua imagem à dos mais tradicionais.”

Impacto em 2018

O sociólogo Sérgio Amadeu é cauteloso ao avaliar o impacto das redes sociais nas eleições do ano que vem. Para ele, apesar de aparentar ser mais democrática, a campanha online pode ser definida em favor daqueles que têm mais dinheiro para investir em posts patrocinados. “Nas redes sociais, a distribuição de conteúdo não vai seguir nenhum critério que se pretenda ser mais democrático, mais ou menos justo”, critica.

Já Carreiro, pesquisador do INCT.DD, acredita que o Facebook dará aos eleitores mais uma maneira de acompanhar os candidatos e fazer uma boa escolha. A facilidade de uso pelas duas partes, segundo ele, possibilita maior controle por pela população. “Como a gente vive conectado, não desconecta em nenhum momento, o acesso a esses políticos está no nosso bolso.”