Quando a política vive de fé

Maioria dos deputados federais faz parte de frentes parlamentares que trabalham com pautas de interesses dos grupos religiosos

Por Igor Moraes, Jonathas Cotrim e Rubens Anater

Parlamentares evangélicos e católicos atuam em conjunto na votação de determinadas pautas. Foto: Lucinda Ulhoa/Divulgação

A aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC 181) numa Comissão Especial da Câmara dos Deputados proibindo o aborto mesmo em situações atualmente autorizadas em lei, como em casos de estupro, trouxe para o centro do debate público a força da religião no Congresso Nacional. O texto foi aprovado por 18 votos a favor e apenas 1 contra. Dos parlamentares favoráveis, 10 são da Frente Parlamentar Evangélica, 1 da Frente Parlamentar Mista Católica Apostólica Romana e outros 5 pertencem aos dois grupos.

O caso não é isolado e reflete a mobilização organizada de uma maioria de deputados federais no País, que tem população majoritariamente cristã. Na atual legislatura, 306 parlamentares fazem parte de alguma das frentes religiosas ou das duas, de acordo com os Diários da Câmara dos Deputados. Isso significa que 60% dos deputados federais participam de grupos que se organizam em torno de denominações religiosas.

Em pautas que envolvem assuntos caros para a religião, os grupos ainda atuam juntos para defender seus interesses. “Trabalhamos a dimensão moral, cristã, em defesa da vida. São esses os projetos em que nós, cristãos católicos, trabalhamos muito em conjunto com a Frente Parlamentar Evangélica”, afirma o deputado federal Givaldo Carimbão (PHS-AL), coordenador da Frente Católica. “Nós somos contra o aborto, a eutanásia, a ideologia de gênero”, diz o parlamentar, um dos votos favoráveis à PEC 181.

A mobilização dos grupos religiosos na Câmara se intensificou a partir de 2010. “Com a candidatura de Dilma Rousseff (PT-MG), a questão da mulher e da abertura para a população LGBTI ficou mais explicitada, inclusive na campanha. Houve então uma visibilidade mais intensa desse conservadorismo”, diz a pesquisadora Magali Cunha, coordenadora do grupo de estudo de Mídia, Religião e Política da Universidade Metodista.

“As bancadas são bem unidas, sempre ocorrem reuniões conjuntas. Nas pautas em defesa da vida, os católicos e evangélicos têm o mesmo posicionamento”, diz o deputado Hidekazu Takayama (PSC-PR), coordenador da Frente Evangélica. O deputado garante que a frente não força o voto dos colegas e que cada um tem o direito de tomar suas decisões. Mas quando a pauta envolve um assunto caro à igreja, a votação é massiva. “Em algumas questões como, por exemplo, na defesa da fé, da liberdade religiosa e dos fundamentos bíblicos, somos unânimes.”

Outro exemplo dessa atuação conjunta ocorreu em outubro de 2015, quando a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 5069/13, do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que dificulta o acesso de vítimas de estupro à pílula do dia seguinte e ao aborto. Dos 37 deputados que aprovaram o texto, 32 estão em alguma das frentes cristãs.

Segundo o deputado Carimbão, as duas frentes também se unem para fazer oposição a deputados com posições contrárias. “Eles foram eleitos para destruir a família”, diz. Essa mobilização ficou explícita no isolamento da deputada Érika Kokay (PT-DF) na Comissão Especial que aprovou a PEC 181, que proíbe o aborto em casos atualmente permitidos por lei. Ela foi o único voto contrário ao parecer favorável à proposta. Para a deputada, as frentes católica e evangélica se dedicam ao fundamentalismo religioso, que elimina a possibilidade de diversidade. “O outro só existe se for um espelho, se não tiver diferenças, e essa lógica está se expressando através de uma intolerância que nossa sociedade não pode permitir”, afirma.

Potencial eleitoral

Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ronaldo de Almeida afirma que as duas principais igrejas evangélicas do País – Universal do Reino de Deus e Assembleia de Deus – estão aprimorando cada vez mais suas campanhas. “Claramente você tem uma profissionalização no sentido de ter candidatos oficiais, focos, estratégias melhores. Estratégia de campanha mesmo, de marketing eleitoral, de definir com antecedência”, explica Almeida, que também é pesquisador do Cebrap.

O comportamento dos deputados na Câmara, diz o especialista, tem um objetivo eleitoral: dialogar com suas bases de fiéis. “O tom agressivo e a mão mais pesada, com estas bandeiras conservadoras, têm a função de acentuar o voto. Isso faz sentido em uma campanha proporcional, para conseguir alguns milhares de votos para uma eleição”, afirma Almeida.

O deputado Takayama, pastor da Assembleia de Deus, nega. Segundo ele, fiéis e pastores não discutem política em sua igreja. “Como em qualquer outra comunidade, as pessoas votam em quem se identificam. Defendemos pautas importantes e que representam a maioria da população.”

Segundo o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as orientações gerais de costumes e formas de agir comuns das religiões têm o potencial de se transformarem em indicações de votos em períodos eleitorais. De acordo com o professor, esta é uma tendência mais presente atualmente nas igrejas evangélicas neopentecostais, mas também já foi muito forte nas comunidades católicas.