Programa político pode ganhar formato mais simples

Com orçamento mais enxuto, vídeos feitos com celular devem ser opção nas campanhas de 2018

Por Ana Beatriz Assam e Bruno Vieira

Sabe aquele programa político que mostra a história do candidato, apresenta suas propostas e termina com um jingle feliz? Pode ser que você veja algo diferente na próxima eleição. Com a reforma política e um orçamento mais enxuto, os marqueteiros devem misturar novas propostas de campanha ao modelo que funcionou até hoje.

O vídeo, um dos principais recursos usados pelos candidatos, ganhará outros formatos, segundo especialistas. Marqueteiro do PV, Pedro Guadalupe acredita que gravar uma campanha inteira com celular seria uma boa oportunidade de inovação. “Com isso, você passa a mensagem de que a campanha é real, de que ‘aqui é cara a cara’”, afirma.

O formato sugerido por Guadalupe já foi usado nas eleições de 2016: Kelps Lima (Solidariedade) gravou sua campanha para prefeito de Natal (RN) usando apenas um celular.

Para Guadalupe, os programas políticos atuais não têm foco no candidato: viraram produções de show business. “O conjunto todo faz até um candidato medíocre parecer grande”, diz. “O dia em que se conseguir explicar que o programa bonito e perfeito na verdade é fake, o simples vai se destacar.” Ele afirma que o certo seria o candidato ter o programa mais simples possível, no estúdio, falando para a câmera. “Seria o honesto”, diz Guadalupe, para quem essa pode ser uma tendência no ano que vem, pois os marqueteiros já esperam contar com uma verba menor.

Independentemente de quanto se investe, no entanto, alguns pontos sustentam uma campanha audiovisual. A oratória, o gestual e a estrutura do discurso do candidato contam muito, assim como suas roupas e aparência. Roteiro, formato e outros aspectos técnicos de vídeo também precisam ser bem escolhidos, já que tudo o que aparece na tela tem um propósito.

Quando o político está em cena, o ideal é fazer enquadramentos mais fechados, que estabelecem uma interlocução mais próxima com o eleitor, explica o jornalista e publicitário Chico Malfitani. “Na campanha de TV, você está invadindo a casa das pessoas para comunicar alguma coisa de maneira mais íntima”, diz Malfitani, que trabalha com marketing político há 30 anos.

Segundo o especialista em oratória Reinaldo Polito, o político precisa falar de uma forma eficiente para ter credibilidade — seja na internet, na TV ou no palanque. “Político é ladrão, bandido, mentiroso, desqualificado e interesseiro: é esse tipo de opinião que a população tem”, diz. “Por isso, ele precisa afastar esse preconceito.”

Polito dá aulas de expressão verbal e já escreveu 30 livros sobre o assunto. Ele defende que a efetividade de qualquer discurso político se desenvolve com base em quatro pilares: naturalidade, emoção, demonstração de conhecimento sobre o assunto e coerência entre o que o político diz e sua conduta pessoal. Além disso, o discurso utilizado deve seguir uma organização lógica.

Ele afirma que o candidato é orientado a falar de forma natural e espontânea para não soar artificial e conquistar a confiança dos eleitores — sem esquecer de passar energia, envolvimento e emoção. Com isso, ele faz o público se interessar por seu discurso. Ter domínio sobre o assunto é essencial para explicar as causas dos problemas que serão discutidos e, mais do que isso, oferecer soluções satisfatórias ao eleitor, sem cair em propostas vagas.

A produção de materiais exclusivos para a internet tem particularidades. “O político tem de ter linguagem própria, ser natural, espontâneo e falar com um certo envolvimento, sem que as pessoas percebam que está ali tentando fazer um discurso”, diz Polito.

Além disso, a produção precisa ser breve, com apenas um assunto por vídeo. “Aquele que tentar fazer vídeo de dois, três ou quatro minutos terá prejuízo na campanha”, afirma. “O programa precisa ser muito rapidinho, porque as pessoas não têm paciência.”