Família vem com força no discurso em 2018

Em tempos de escândalo e descrédito, vida pessoal tende a substituir menção a garantias partidárias

Por Alessandra Monnerat e Mariana Agati

A palavra ‘família’ deve ganhar os palanques em 2018. A estratégia não significa uma mudança em relação ao perfil da atual legislatura, mas ganha protagonismo num momento em que os partidos estão em baixa na política nacional. Com os recentes escândalos de corrupção, a vida pessoal do candidato tende a substituir as garantias partidárias. “Ainda não sabemos a dimensão que isso vai atingir, mas o argumento vem ficando mais recorrente”, diz a coordenadora do programa de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Luciana Veiga.

O apelo do tema ficou claro durante a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, quando ‘família’ foi pronunciada mais de 110 vezes no plenário. [veja gráfico] Atualmente, 72,7% dos parlamentares no Congresso são casados. Levantamento feito pelo Estado com o perfil de aspirantes a uma vaga em Brasília que têm força nas redes sociais, o resultado não se afasta muito. Casado é o estado civil de 58,6% dos nomes que devem disputar uma cadeira de deputado em Brasília.

Para Luciana, da Unirio, a tendência é de os candidatos a parlamentar destacarem sua vida familiar para garantir votos, o que já vem crescendo principalmente entre políticos do campo conservador. “O discurso conservador da família padrão vem ganhando força, muito na subida dos movimentos de igreja, com campanhas como a do (deputado federal Jair) Bolsonaro.” A reação da esquerda, diz a cientista política, é destacar a trajetória e o envolvimento com grupos sociais. “É um processo de polarização. Esquerda e direita estão se posicionando de maneira mais veemente. Há os candidatos de esquerda que defendem que esse não é o único tipo de família a ser considerado, que há outros padrões”, diz Luciana.

Raízes políticas

Mais do que mostrarem sua vida familiar durante a campanha, os candidatos a vagas no Congresso devem se beneficiar do parentesco com sobrenomes tradicionais da política nacional, afirma o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná. “A política brasileira vem sendo desempenhada por unidades familiares. Pouquíssimos jovens e mulheres são eleitos no Poder Legislativo sem conexões familiares”, diz Oliveira. Analisando a série histórica, é possível identificar que a participação de parlamentares ligados a famílias de poder vem aumentando ao longo das várias legislaturas, explica o sociólogo.

A bancada dos parentes tem 59 representantes no Senado (73% da Casa) e 319 deputados na Câmara (62%), segundo levantamento do site Congresso em Foco. São políticos com familiares já eleitos — parte de dinastias com décadas ou até mesmo um século de idade, como a do deputado Bonifácio de Andrada (PMDB-MG), há 196 anos na legislatura [veja o gráfico abaixo]. Para o ano que vem, o professor prevê que a representatividade dessa grande família aumente ainda mais. “As famílias políticas reúnem mais recursos econômicos e também possuem redes políticas mais estruturadas e antigas, diz Oliveira. O Brasil hoje, em termos gerais, é uma grande república do nepotismo, e isso não vai mudar. Por ora, pelo andar da carruagem, estamos engatando a marcha ré.”

Entre os deputados do Nordeste, os laços familiares estão ainda mais presentes. Dos 151 parlamentares desta região, ao menos 126 (83%) têm parentesco com outros políticos. O professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) José Henrique Artigas explica que nesta parte do Brasil o voto clientelista e tradicionalista é mais frequente. “Nessas regiões com renda e escolaridade baixas, há uma dificuldade de afirmação de grupos novos. É comum ouvirmos que o filho vota no candidato que o pai e o avô votavam — ou no filho ou neto desse candidato. Quem consegue uma casa popular, por exemplo, atribui isso não a um direito à habitação, mas sim a um favor que o político prestou”, explica Artigas.

Muitas vezes, o eleitor fica alheio às engrenagens das famílias políticas que funcionam por trás das eleições. “O (prefeito João) Doria passou a mensagem de que ele era novo na política e representava renovação, mas ele é o que há o que mais tradicional do ponto de vista genealógico, de ‘pedigree’ do período colonial”, diz o sociólogo Ricardo Oliveira. O prefeito da capital paulista é descendente da família Costa Doria, uma das mais antigas famílias políticas do Brasil, presente na Bahia desde o século 16. “É uma família que tem uma genealogia colonial nordestina”, diz o pesquisador.

E, nessa engrenagem, os casamentos desempenham um papel fundamental. “As mulheres às vezes são mais importantes do que os maridos”, afirma Oliveira. “As primeiras-damas do Poder Executivo têm uma centralidade. E o que acontece? Todo político bem-sucedido, se ele for realmente emergente, ou ele ou os filhos e netos vão casar com a velha elite.”

Família em pauta

Além de desempenhar um papel importante na campanha e no jogo político, a família tem bastante representatividade no Congresso como tema de pautas – a maior parte delas centrada no combate ao aborto legal no País. Mais recentemente, a aprovação da PEC 181 – proposta de emenda à Constituição que interfere na interpretação de todas as leis e portarias que autorizam serviços de aborto legal no Brasil – por 18 votos favoráveis e apenas um contra numa Comissão Especial da Câmara chamou atenção para a atuação da Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família.

Criado em 2015, o bloco tem 236 deputados. Desses, 22 compõem a Comissão Especial que aprovou a PEC 181. Segundo o presidente da bancada, deputado Diego Garcia (PHS-PR), o bloco se articula para aprovar projetos que visam a valorização da ‘pessoa humana e da família’. “Entendemos que a nossa família, assim como afirma a Constituição no artigo 226, é a base da sociedade.” Garcia é relator do Estatuto do Nascituro, projeto de lei apresentado em 2007 que protege integralmente os direitos do feto desde a concepção e categoriza o aborto como crime hediondo.

Na visão de Garcia, a frente parlamentar deve crescer nas eleições do próximo ano com as chances de uma alta renovação da Câmara. “Eu acho que a consequência disso vai ser a eleição de pessoas que possam atuar também em defesa de valores, como a questão da defesa da vida, da família, e do enfrentamento da corrupção”, prevê o deputado. Na próxima legislatura, Garcia acredita que a ‘bancada da família’ estará em pé de igualdade com a frente do agronegócio – a maior da Casa.

Colaboraram Rubens Anater, Luiz Fernando Teixeira, Caio Sartori e Éros Mendes