Entrevista: ‘A verdade é apenas um fator dentre vários em uma eleição’, diz editora americana

Angie Holan, do site de checagem Politifact, pede que pessoas não se informem apenas pelas redes sociais

Por Alessandra Monnerat

Angie Holan, editora do site de checagem Politifact. Foto: Ståle Grut/NRKbeta

A jornalista americana Angie Holan tem tido muito trabalho desde que Donald Trump decidiu concorrer à presidência dos Estados Unidos. Ela é editora no site de checagem Politifact, que classifica as declarações das figuras públicas como falsas ou verdadeiras. De acordo com a página, apenas 4% de 474 falas do atual presidente americano foram categorizadas como verídicas.

Nesta entrevista, a integrante da equipe vencedora do Pulitzer, o maior prêmio do jornalismo mundial,  pela cobertura das eleições de 2008, pede para as pessoas não se informarem apenas pelas redes sociais. E diz que as pequenas mentiras ditas pelos candidatos podem indicar que eles estão propensos a grandes erros no futuro. “O quadro mais amplo é feito de coisas menores”, diz.

Os candidatos têm se comunicado diretamente com os eleitores pelas redes sociais, que também acabam sendo a fonte única de notícias para muitas pessoas. Como isso pode mudar as eleições?
Eu diria aos eleitores que é muito importante que eles não recebam notícias somente pelas redes sociais. Eles devem fazer um esforço para estarem mais informados, encontrando uma nova fonte na qual eles confiem e que tenha um bom histórico. Não confie apenas que as notícias cheguem até você, porque você pode ter uma imagem muito distorcida do que está acontecendo. O que vemos nos Estados Unidos é que as coisas que são compartilhadas nas redes sociais podem ser facilmente distorcidas. Às vezes, a manchete é enganosa ou a notícia chega de uma fonte enviesada – vem de um dos candidatos ou de um dos partidos, mas parece uma reportagem independente. Ou, às vezes, é algo totalmente fabricado. Alguém inventa uma história ultrajante para que as pessoas cliquem. E esse é mais um processo que precisamos controlar do que um problema que temos de resolver. As redes sociais se movem muito rápido.

Nos Estados Unidos, a mídia errou sobre o tamanho do eleitorado de Donald Trump. Apesar da imprensa provar que ele fazia declarações falsas, ele venceu. Os eleitores realmente se importam com a mentira?
As pessoas se importam com a verdade, mas a verdade é apenas um fator dentre vários em uma eleição. Os eleitores americanos – e todos os eleitores, na verdade – se preocupam mais com a personalidade de uma pessoa. Nos EUA, muitos disseram que não gostavam e não confiavam em Hillary Clinton e queriam dar uma chance a Donald Trump. Também vimos eleitores motivados pela raiva ao ir votar. As pessoas que estavam satisfeitas com Obama não se sentiam tão motivadas para ir às urnas como as que votaram em Trump. Mas acho que as pessoas procuram saber se os candidatos são verdadeiros. E também acredito que é possível que elas saibam que seu candidato fala muitas coisas erradas e ainda assim votam nele.

Se as pessoas são movidas pela personalidade e pela emoção, como podemos checar, nesse sentido, quando os candidatos estão mentindo em uma campanha eleitoral?
Não podemos saber se alguém está mentindo de forma intencional ou não porque não temos como saber o que está na mente das pessoas. Então, tentamos nos afastar da intenção e apenas ver se o que eles disseram era exato ou não. Nós já fazemos checagens há dez anos e acho que um de nossos desafios é sempre mostrar aos eleitores qual é a big picture, a perspectiva mais ampla. Temos mais de 15 mil checagens em nosso banco de dados. Eles são muito úteis para as pessoas saberem se um fato específico é verdadeiro ou não. Mas é um desafio dar um passo atrás e ter uma perspectiva geral.

Essa perspectiva é essencial na hora de votar?
É importante ter uma perspectiva, mas o quadro mais amplo é feito de coisas menores. Acho que os candidatos que erram nas pequenas coisas também tendem a errar nas grandes coisas.

E até que ponto o fact checking pode mudar essa percepção nos eleitores?
Vejo diferentes maneiras que tivemos impacto. Durante o ano eleitoral, recebemos 100 milhões de visualizações de página. Estamos com mais leitores e eles gostam mais de nós. Também somos referência para repórteres tradicionais de política. Os jornalistas também estão corrigindo erros dos candidatos em suas histórias. Então, vejo todas essas tendências como muito positivas. Vemos mais organizações de fact checking do que nunca. Isso é muito animador.

Recentemente, vimos nas eleições locais dos Estados Unidos uma reação à guinada mais conservadora do último pleito. Essa é uma tendência geral?
Estamos vendo nos Estados Unidos mais pessoas movendo-se para os extremos, tanto da esquerda como da direita. Há muitos desafios quando temos um eleitorado polarizado como vemos agora. Me parece que as extremidades estão ficando maiores. Como uma checadora de fatos, quero que as pessoas fiquem calmas, olhem para as evidências e possam conversar civilizadamente entre si. Eu não acho que essa partidarização extrema vai durar para sempre. Em algum momento as pessoas se juntarão novamente. Teremos de esperar e ver quando isso vai acontecer.