Em busca de renovação, grupos buscam partidos para candidaturas cívicas em 2018

Movimentos da sociedade civil prometem oxigenar a política com o suporte a ‘novos rostos’ na próxima eleição

Por Jonathas Cotrim e Ricardo Magatti

Empresário Eduardo Mufarej é um dos idealizadores do RenovaBR. Foto: Christina Rufatto/Estadão – 22/11/2017

Movimentos da sociedade civil que buscam a renovação política querem chegar com força nas eleições do ano que vem. Levantamento feito pelo Estado com sete desses grupos indica o lançamento de mais de 300 nomes para disputar o pleito de 2018. Sem a possibilidade de investir em candidaturas independentes, vetadas pela Lei Eleitoral brasileira, esses movimentos se aproximam de pequenos partidos, mais abertos a essas iniciativas, como Novo, PSOL e Rede.

Acredito, Agora!, Bancada Ativista, Brasil21, Muitas, RAPS e RenovaBR são apenas alguns dos grupos que devem apoiar candidaturas por meio do incentivo a estudos políticos ou do envolvimento da sociedade civil na construção de agendas públicas. Em comum, eles defendem o surgimento de uma nova geração de líderes que tenham um mandato com gestão fiscal responsável, transparência nas contas públicas, combate à corrupção e interação com os eleitores. A maioria se apresenta como suprapartidário e prega que a agenda pública deve prevalecer sobre a ideologia das legendas.

A campanha ainda não começou, mas a atuação desses movimentos já enfrenta resistência da classe política. Em outubro, o deputado Jorge Solla (PT-BA) pediu à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, uma investigação sobre o RenovaBR. Solla alega que o grupo burla decisão de 2015 do Supremo Tribunal Federal (STF) que impede o financiamento eleitoral por pessoas jurídicas.

“Nosso processo de capacitação e formação tem amplo apoio da sociedade e respaldo jurídico. Estamos muito convictos da nossa atuação”, disse Eduardo Mufarej, cofundador do RenovaBR, em resposta à declaração do deputado.

Especialistas não veem ilegalidade nos movimentos cívicos e nos programas de capacitação. “Não há nada que vede o apoio ao exercício do mandato ou a qualificação de alguém que algum pretenda um dia ser candidato. O que é vedado é antecipação de financiamento de campanha”, alerta a professora de Direito do Instituto Brasiliense de Direito Público, Marilda Silveira.

Mas o professor de Direito Eleitoral da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Beçak avalia que esses grupos podem provocar uma competição desleal na eleição. “Eles podem estar oferecendo determinados benefícios aqui e ali que outros candidatos não beneficiados por esses fundos não teriam condições de arcar.”

Aprendendo a ser político

Com a promessa de serem alternativa à “velha política”, os movimentos oferecem programas de formação de jovens líderes antes de se aventurarem na eleição. A Rede de Ação pela Sustentabilidade (RAPS) e a RenovaBR financiam cursos sobre marketing político, problemas sociais do Brasil e o funcionamento das instituições políticas nacionais. Os grupos informam que não financiam diretamente os futuros políticos que frequentam seus cursos, mas a RenovaBR diz que banca bolsas de estudo que podem chegar a R$ 12 mil.

“Queremos viabilizar o acesso de pessoas que hoje não estão vinculadas à política ou que não tenham histórico em partidos tradicionais. Ninguém para para pensar a dificuldade de qualquer pessoa em se candidatar”, argumenta Eduardo Mufarej, presidente da ONG Somos Educação e idealizador do RenovaBR, que recebeu apoio do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga.

A RAPS, por sua vez, financia o contato entre jovens lideranças e políticos, e proporciona estágios e cursos em faculdades no exterior aos seus futuros candidatos. Criado em 2010, o grupo tem no comando o empresário Guilherme Leal, dono da Natura, e a socióloga Maria Alice Setúbal, uma das herdeiras do Banco Itaú. Ligados a Marina Silva, ambos atuaram nas campanhas da ex-senadora à Presidência da República, candidata em 2010 e 2014.

“A maior qualidade da RAPS é ser um fórum de reunião dos diferentes”, explica o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), um dos políticos que integram o movimento. Para fazer parte dos fóruns de debate, os políticos escolhidos não podem ter nenhum processo na Justiça e não recebem nenhum tipo de recurso financeiro do grupo.

Sâmia Bomfim (PSOL) foi eleita vereadora de São Paulo com a ajuda da Bancada Ativista. Foto: Tiago Queiroz/Estadão – 03/10/2016

Pré-candidatos

Sem contar com uma agenda de propostas definida, o grupo Agora! já tem um candidato confirmado para as eleições de 2018: é o ex-juiz Marlon Reis, que vai disputar o governo do Tocantins pela Rede. “Esperamos conseguir a renovação na política por meio da sociedade civil, para que lá na frente nós consigamos nos sentir representados pela nossa classe política”, afirma o cientista político Leandro Machado, um dos fundadores do Agora!. O movimento foi lançado em 2016 e tem entre seus integrantes o apresentador de TV Luciano Huck, além de acadêmicos, artistas e ativistas na faixa dos 40 anos.

O Acredito foi fundado em julho de 2017 por cinco jovens, vindos de diferentes Estados. Eles têm média de idade de 27 anos e experiência de estudos no exterior. E querem renovar o Congresso Nacional. Segundo José Frederico Lyra Netto, coordenador e cofundador do movimento, esse é um projeto para os próximos dez anos. “Queremos um novo Congresso, com a cara do Brasil”, afirma. O Acredito deve definir em fevereiro seus candidatos ao pleito do ano que vem.

Com a força de quem elegeu a vereadora mais jovem na Câmara Municipal de São Paulo – Sâmia Bomfim, do PSOL -, a Bancada Ativista surgiu no começo de 2016 e se apresenta como um movimento progressista. “A princípio, a expectativa não era nem eleger candidato, mas tentar construir no imaginário das pessoas a introdução de pessoas ligadas a diferentes movimentos fora da política tradicional”, diz Sâmia.

Em Belo Horizonte, o movimento Muitas ajudou na campanha de Áurea Carolina e Cida Falabella, ambas eleitas pelo PSOL para a Câmara Municipal da capital mineira. “Já tenho trajetória ativista, que me levou a construir o Muitas junto com outras ativistas. É parte de uma história de vida”, diz Áurea, que foi a vereadora mais votada na cidade, com 17.420 votos.

No Brasil21, o foco será nas eleições majoritárias, estratégia para causar maior impacto. Por enquanto, o nome definido é o de Alice Gabino, de 37 anos, pré-candidata ao Senado pela Rede, em Pernambuco. “É a maior oportunidade de renovação que a gente tem, pois são votos mais ideológicos, tem mais tempo de mídia e há menos candidatos para disputar a atenção”, afirma o presidente do Instituto Brasil21, Pedro Henrique de Cristo.