Elefantes e humanos em conflito

No Sri Lanka, ilha a sudeste da Índia, agricultores lutam para defender a lavoura dos paquidermes, em uma guerra que deixa cerca de 50 pessoas e 150 animais mortos por ano; transferência deles para parques nacionais não funcionou, o que levou a uma solução inusitada: cercar os homens

Herton Escobar

Todas as noites, após o jantar, milhares de agricultores no Sri Lanka pedem licença às suas famílias e se retiram de casa para dormir em cabanas de palha construídas no alto das árvores. Levam água, lanterna, um ou dois rojões, telefone celular, e não descem de lá até o amanhecer. Passam as noites meio acordados meio dormindo, vigiando suas plantações contra o ataque de elefantes.

“Dos 12 meses do ano, acho que passo só 2 dormindo em casa, com minha família”, conta A. G. Bandaranaike, plantador de arroz dos arredores de Sigiriya, na região central do Sri Lanka. “É uma pena, mas não temos outra opção. Nossas vidas dependem dessa produção.” Se os elefantes vierem matar a fome com o seu arroz, sua família poderá não ter o que comer depois.

O conflito entre seres humanos e elefantes é um problema sério no Sri Lanka, uma ilha de 65,6 mil quilômetros quadrados, não muito maior do que a Paraíba, com 21 milhões de habitantes e mais de 5 mil elefantes selvagens. Cerca de 50 pessoas e 150 elefantes morrem em média todos os anos no país, vítimas de confrontos por espaço e alimento entre as duas espécies. Em 2010, esses números escalaram para 81 e 227, respectivamente.

Um conflito que Bandaranaike e seus vizinhos conhecem muito bem. Difícil achar alguém no interior do Sri Lanka que não tenha uma história de elefante para contar. Relatos de plantações invadidas, casas danificadas e até colisões de trânsito são comuns em várias vilas.

Franzino, mas energético, aparentando ter bem menos do que os seus 43 anos, Bandaranaike relata de maneira teatral o enfrentamento que ele, o cunhado e mais dois amigos tiveram com um elefante alguns dias antes. Estavam afugentando dois elefantes de uma plantação vizinha quando Bandaranaike ouviu gritos alertando que havia um terceiro animal em sua terra. Todos correram para lá e Bandaranaike usou rojões para afugentar o bicho, que correu para a floresta, mas voltou de surpresa e os atacou.

Em meio ao corre-corre, o cunhado, Loku Banda, de quase 60 anos, caiu e foi chutado pelo elefante. Foi parar no hospital com um braço quebrado, um cotovelo deslocado, e pode-se dizer que deu sorte. Ataques como esse costumam ser fatais.

Os conflitos mais graves quase sempre envolvem machos solitários, bem mais agressivos do que as fêmeas. A vida social dos elefantes no Sri Lanka é organizada em famílias de parentesco direto, regidas pelas fêmeas mais velhas. Os machos vivem em família até atingirem a maturidade sexual, por volta dos 10 a 15 anos. Depois, passam a viver por conta própria.

Na época da reprodução, seguindo uma regra quase universal do mundo animal, eles se enfrentam pelo direito de inseminar as fêmeas. É natural, portanto, que cada macho procure a melhor fonte de nutrição possível. “Para acasalar você precisa ser grande e forte. E a única maneira de ser grande e forte é se alimentando bem”, explica o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka.

Infelizmente para os agricultores, não há nada numa floresta que se compare ao potencial energético de um arrozal, um bananal ou um canavial humano, cheio de plantas suculentas e supernutritivas num só lugar. “Os elefantes sabem disso e estão dispostos a correr riscos para obter essa refeição”, diz Fernando. “É aí que os conflitos começam.”

Um problema semelhante ao de pecuaristas e onças no Pantanal. Só que muito maior. E mais pesado.

“Para nós, o elefante é um animal magnífico, que precisa ser preservado. Para os agricultores, é como uma praga. Eles não querem matar os elefantes, mas querem uma solução”, diz o consultor Srilal Miththapala, do setor de turismo do Sri Lanka, que estuda o conflito há vários anos.

Quando um animal causa problemas demais, os fazendeiros revidam com tiros, armadilhas, veneno, ou até bombas caseiras, escondidas dentro de melancias, que explodem na boca do elefante ao serem mastigadas. Entre 1990 e 2009, cerca de 3 mil elefantes foram mortos nesses conflitos. Quase todos eles, machos.

Elefantes adultos precisam comer pelo menos 150 quilos de vegetação por dia. Razão pela qual passam 17 horas por dia se alimentando e precisam de áreas tão extensas para sobreviver. Com suas florestas e pastagens invadidas cada vez mais por cidades e fazendas, os conflitos tornam-se inevitáveis.

“Daqui para frente só vai piorar,”, prevê a bióloga Manori Gunawardena. Com o fim da guerra civil que aterrorizou o país durante três décadas, em 2009, várias áreas agrícolas que estavam abandonadas – e que foram ocupadas por elefantes nesse meio tempo – estão sendo retomadas por agricultores. “Eles vão começar a plantar, e os conflitos vão começar a acontecer”, avisa Manori.

Paradoxo
Um dos ambientes favoritos dos elefantes são as florestas secundárias de “chena”, ou coivara, nome dado à prática de agricultura com fogo, em que o produtor faz uma rotação de terras, deixando a mata crescer e queimando-a de tempos em tempos para fertilizar o solo. A vegetação dessas áreas é composta de plantas de vida curta e crescimento rápido, que são mais palatáveis para os elefantes.

Assim, ironicamente, ao desmatar florestas primárias e substituí-las por florestas secundárias, os agricultores favorecem a reprodução dos elefantes, fornecendo-lhes uma fonte abundante de alimento. Além disso, milhares de lagos artificiais espalhados pela ilha, construídos para irrigação, funcionam como oásis, mantendo os elefantes bem hidratados nos períodos de seca.

“É por isso que temos uma densidade tão grande de elefantes”, diz o pesquisador Devaka Weerakoon, da Universidade de Colombo. “Se não fosse pela interferência humana, o número de animais seria bem menor.”

O resultado é um cenário paradoxal, em que a ocupação de habitats naturais ao mesmo tempo encurrala os elefantes e favorece a sua multiplicação, criando uma densidade populacional excessiva que só aumenta os conflitos e dificulta a conservação da espécie.

A solução padrão adotada nas últimas décadas foi a transferência de elefantes de áreas de conflito para parques nacionais, onde imaginava-se que eles viveriam felizes para sempre. Mas não.

Mesmo com os parques cercados por cercas elétricas, a maioria dos machos escapa à força e volta à sua região de origem – às vezes caminhando centenas de quilômetros para isso. Os que não conseguem fugir (em geral fêmeas e jovens) permanecem próximos às cercas e sofrem com a escassez de alimento dentro dos parques, que muitas vezes não têm vegetação suficiente para sustentar tantos elefantes. No Parque Nacional de Yala, vários chegaram a morrer de fome, diz Weerakoon, mostrando-me fotos de elefantes esquálidos ao lado das cercas.

Estudos recentes mostram que os elefantes do Sri Lanka, diferentemente dos africanos, não são migratórios. Eles circulam por áreas relativamente pequenas (de 50 a 200 km2), às quais são intimamente ligados. Por isso não aceitam ser transferidos para outros locais.

Desde 2006, Fernando e sua mulher, a bióloga suíça Jenny Pastorini, acompanham via satélite os movimentos de 15 elefantes machos equipados com coleiras de GPS. Todos foram transferidos de zonas de conflito para parques nacionais, mas nenhum deles permaneceu lá. Todos escaparam. Alguns conseguiram voltar para seu local de origem, outros se perderam e passaram a causar problemas em novas áreas. Resultado: cinco elefantes e seis pessoas mortas até agora.

Armistício
Um dos poucos lugares onde homens e elefantes conseguiram firmar um armistício é no entorno do Parque Nacional de Wasgamuwa. Ali, conservacionistas fizeram o oposto: em vez de cercar os elefantes, cercaram os seres humanos. Duas vilas vizinhas do parque, Pussellayaya e Weheragalagama, foram “revestidas” com cercas elétricas, impedindo a entrada dos animais.

Funcionou tão bem que os agricultores nem dormem mais em cima das árvores. Voltaram a dormir em casa, com suas famílias. E multiplicaram suas rendas, recuperando áreas de plantio que estavam abandonados por causa do conflito. “Dez anos atrás isso aqui era uma guerra”, conta Ravi Corea, presidente da Sociedade para Conservação da Vida Selvagem do Sri Lanka, responsável pelo projeto.

“Depois das 18 horas ninguém mais escutava rádio, e orientávamos as crianças a não ler em voz alta para não atrair os elefantes”, conta o agricultor Athula Karmara, diretor do “comitê de manutenção e supervisão” da cerca de Weheragalagama. Agora, ele não só não atira mais nos elefantes como leva suas crianças para observar os animais na beira dos lagos onde eles bebem água nos finais de tarde. “É um passatempo familiar”, diz. “Ambos agora estão protegidos, humanos e elefantes, cada um do seu lado da cerca.”

Não muito longe dali, em Sigiriya, moradores continuam a viver com medo dos elefantes. O produtor de cebolas Karunaratne Banda me mostra os galhos quebrados de uma árvore no fundo de sua casa, danificada por um elefante que avançara sobre ele algumas noites antes. “Tinha acabado de jantar, saí de casa e o elefante estava lá”, conta. “Saí correndo, joguei a lanterna no chão e comecei a gritar. Foi o que meu pai me ensinou a fazer.”

O animal parou para inspecionar a lanterna e desistiu do ataque. Banda e Bandaranaike acreditam que o elefante seja o mesmo macho que aterrorizou a região um ano atrás, matando oito pessoas. “O Departamento de Vida Selvagem levou-o para longe, mas achamos que ele voltou”, diz Banda.

A conversa está boa, mas o agricultor pede licença para se retirar. Já é fim de tarde. Hora de subir na árvore.

Saiba mais
Cativos são categoria em extinção

Cansado e frágil, aos 88 anos, Appuhamy Millangoda aceita prontamente o pedido do Estado de posar ao lado do seu “animal de estimação”: um elefante de 50 anos chamado Jayanthi, com mais de 3 metros de altura, pelo menos 4 toneladas de peso e duas longas presas de marfim. Quase me arrependo ao ver os dois lado a lado, temendo que o animal faça algum movimento brusco. Mas Millangoda não mostra um pingo de receio. Ele é macaco velho no trato com elefantes, tendo convivido com esses gigantes durante toda a vida.

Jayanthi é apenas um dos quatro elefantes da família. Há ainda uma fêmea e outros dois machos, todos também de meia idade, na faixa dos 40 a 50 anos. Raja, o animal favorito da família, morrera de velhice algumas semanas antes, aos 74 anos. Todos dizem que era um animal impressionante, com quase 4 metros, 5 toneladas e presas de marfim tão grandes que quase tocavam o chão. Pelas fotos que o Sr. Millangoda faz questão de mostrar, parece ser tudo verdade.

“Nunca haverá outro elefante como o Raja. Nem no Sri Lanka nem no resto da Ásia”, proclama ele, orgulhoso.

Ter um elefante no Sri Lanka é como ter uma Ferrari na Itália – é um símbolo de status e de orgulho nacional. Em parte por um simbolismo histórico de nobreza, enraizado na cultura e na religião dos cingaleses desde os seus primeiros reis. Em parte pelo custo de manter um elefante, que é altíssimo para os padrões do Sri Lanka, na casa dos US$ 1 mil por mês. Se você tem um gigante desses na garagem, portanto, isso diz muito sobre o tamanho da sua conta bancária.

Essa adoração social, cultural e religiosa, porém, pode estar com os dias contados. A população de elefantes cativos do país está ameaçada de extinção, mais até do que a população selvagem.

Capturar elefantes selvagens, como fazia o senhor Millangoda na sua juventude, é proibido desde 1977. O número de elefantes cativos, ou “domesticados”, no país caiu de aproximadamente 400, na década de 1990, para pouco mais de 100, no ano passado. E mais da metade desses 100 já tem mais de 50 anos. “Vamos ficar sem elefantes logo logo”, alerta Sunel Rambukpotha, secretário do chamado “Templo do Dente”, na cidade sagrada de Kandy, onde está guardado um dente de Buda – a relíquia religiosa mais importante do país.

Todos os anos, em agosto, o Dente é carregado pelas ruas da cidade numa procissão envolvendo dezenas de elefantes, chamada “perahera”. É uma tradição que mistura crenças culturais e religiosas, segundo Rambukpotha. Diz a lenda que a mãe de Buda, na noite antes de dar à luz, sonhou com um elefante entrando em seu ventre, na forma de uma névoa.

O animal selecionado para carregar o relicário nas procissões, assim como no sonho, tem de ser um “tusker” – um elefante com presas, como se chama por aqui. O que cria uma dificuldade, já que, por alguma razão incógnita, menos de 10% dos elefantes machos do Sri Lanka têm presas, comparado a mais de 90% na Índia e outras regiões da Ásia. Além disso, tem de ser um animal grande, especialmente belo, com boa postura e sem qualquer imperfeição física.

São poucos os elefantes no Sri Lanka que preenchem esse perfil. O Raja do Sr. Millangoda era um deles. Agora que ele morreu, restam apenas quatro, também em idade avançada – o mais novo tem 36 e o mais velho, 66. “Não sabemos como vamos resolver isso”, diz Rambukpotha.

Soluções

Para que o país não fique sem elefantes, só há duas soluções: ou captura-se novos filhotes da natureza ou eles têm de ser reproduzidos em cativeiro. A melhor opção seria a segunda. O problema é que muitos dos elefantes cativos do Sri Lanka já passaram da idade fértil, e não há uma cultura de se reproduzir elefantes em cativeiro no país. Proprietários particulares nunca se interessaram por isso, porque a gestação de um elefante dura 22 meses e o animal não pode trabalhar durante esse período.

“Não é economicamente viável manter um elefante se você não pode ganhar dinheiro com ele”, raciocina Deepani Jayantha, representante da Born Free Foundation no Sri Lanka. Além do tempo de gestação da mãe, o bebê exige cuidados especiais e não pode trabalhar pelos primeiros dez anos.

O status que um elefante particular confere é equivalente ao de uma Ferrari, mas os serviços prestados por ele equivalem aos de tratores, empilhadeiras e caminhões. Além de conduzir reis em campos de batalha, os elefantes foram historicamente usados como animais de carga na agricultura, na indústria madeireira, de construção e outras atividades “peso pesado”. Pergunte a qualquer cingalês e ele te dirá que o Sri Lanka foi construído no lombo de um elefante.

Hoje há poucas “oportunidades de emprego” para elefantes fora da indústria de turismo, substituídos por guindastes e tratores de verdade. Mas a demanda por status continua. Assim como as tradições religiosas. Só a oferta de elefantes particulares é que está em queda.

A única instituição com experiência em reprodução de elefantes no país é o orfanato de Pinnawela, do governo federal. Inaugurado em 1975, com cinco órfãos, o orfanato hoje cuida de 90 elefantes, 69 dos quais nasceram lá mesmo. Há anos a instituição não recebe mais animais selvagens, pois está com lotação esgotada. Ainda assim, toda vez que se propõe doar algum de seus elefantes para templos ou zoológicos, uma grande polêmica tem início.

O respeitado conservacionista Jayantha Jayewardene, gerente do Fundo para Conservação de Elefantes e da Biodiversidade, sugere que alguns animais jovens sejam doados para proprietários selecionados, que tenha capacidade técnica e financeira comprovada de cuidar dos elefantes. Seria uma maneira de aliviar a superlotação do orfanato e manter vivas as tradições do país.

“Ter elefantes domesticados é bom para a conservação, pois ajuda as pessoas a admirar e entender melhor esses animais”, argumenta Jayewardene. O Orfanato de Pinnawela recebe cerca de mil visitantes por dia, tanto do exterior quanto do Sri Lanka. Para muitos deles, é uma oportunidade única de interagir com esses animais assustadoramente enormes e inteligentes.

Animal multiuso
O que fazer com tantos elefantes?
Especialistas discutem possíveis soluções

O problema mais grave do conflito entre seres humanos e elefantes no Sri Lanka é que parece não haver solução simples ou definitiva para ele. Seja qual for o caminho escolhido para lidar com a situação, porém, é certo que ele passará por algumas decisões difíceis. Entre elas, a mais básica e mais complicada de todas: O que fazer com tantos elefantes?

O cenário está posto: A população do Sri Lanka dobrou nos últimos 50 anos, de 10 milhões de habitantes na década de 1960 para mais de 20 milhões, hoje. Com o fim de uma guerra civil que durou 30 anos, em 2009, é provável que ela continuará a crescer. E para onde quer que cresça, vai trombar com elefantes. Estima-se que dois terços dos elefantes selvagens do país vivem “soltos” na natureza, fora de unidades de conservação. Cerca de 12% do território nacional já é ocupado por parques dedicados a esses animais. Não há espaço para a criação de novas áreas protegidas, e, mesmo que houvesse, os elefantes não aceitam ser mudados de lugar.

Em resumo: Ou os humanos encontram uma maneira de conviver com os elefantes, ou uma das espécies terá de recuar. “Não há mais hábitat vago no Sri Lanka. Todo lugar tem gente, todo lugar tem elefantes”, diz o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka. “Os parques nacionais são suficientes para abrigar só um terço da população de elefantes. Se quisermos restringir os animais a esses parques, vamos fazer o que com os outros dois terços?”

A resposta mais radical seria sacrificar elefantes para reduzir sua densidade populacional em áreas críticas de conflito. Algo que parece absurdo, especialmente tratando-se de uma espécie ameaçada de extinção, mas já está acontecendo, de maneira muito mais cruel, à medida que elefantes são mortos ilegalmente por agricultores ou morrem de fome após serem transferidos à força para unidades de conservação.

“Estamos gastando uma quantidade gigantesca de dinheiro para cercar elefantes e condená-los à morte”, diz o pesquisador Devaka Weerakoon, da Universidade de Colombo. “Se é para fazer isso, melhor sacrificá-los. Seria uma morte menos cruel, pelo menos.”

Não é o que os pesquisadores desejam. Nem é algo que seria aceito pela população. Por mais grave que seja o conflito, o elefante é um animal adorado no Sri Lanka, de grande importância cultural e religiosa. Os mesmos agricultores que envenenam ou atiram nos elefantes que invadem suas plantações fazem de tudo para ajudar um elefante que esteja machucado ou que tenham caído num poço, por exemplo. Também são os primeiros a reconhecer que são os humanos que estão invadindo o território dos elefantes, e não o contrário.

A longo prazo, dizem os especialistas, a maneira mais sensata de mediar o conflito será pelo zoneamento e ordenamento territorial, definindo áreas onde seres humanos e elefantes devem viver separados e onde as duas espécies precisam aprender a viver juntas. Uma solução complexa e difícil de ser implementada. Mas talvez a única alternativa a matar elefantes.

“Não temos mais espaço para áreas protegidas exclusivas para animais. Mas temos bastante espaço para o planejamento de áreas mistas”, diz a bióloga Manori Gunawardena, uma das cientistas mais engajadas na conservação de elefantes do Sri Lanka.

A localização dos parques atuais foi escolhida entre as décadas de 1960 e 1980, quando ainda pensava-se que os elefantes eram animais puramente florestais. Consequentemente, os parques foram criados em áreas de florestas. “O que foi ótimo para muitas espécies, mas não para os elefantes”, diz Manori. O hábitat ideal para os elefantes, diz ela, é um misto de florestas, onde eles podem se refugiar durante o dia, e áreas de vegetação mais esparsa, coberta de grama e arbustos, onde eles podem se alimentar durante a noite.

É por isso que as áreas de agricultura rotativa, ou “chena”, são tão atraentes para os elefantes, que podem se alimentar da vegetação secundária que brota nos campos que não estão sob cultivo em determinados anos. A prática de chena é ilegal no Sri Lanka (apesar de amplamente praticada), mas pesquisadores querem regularizá-la, para servir como um “meio campo” de convivência entre homens e elefantes.

Cercas elétricas fazem parte da solução, para estabelecer limites, mas têm de ser colocadas nos lugares certos, ressaltam os pesquisadores. No lugar errado, podem trazer mais problemas do que soluções. No Parque Nacional de Yala, por exemplo, elas impedem o acesso dos elefantes nos períodos de seca a áreas importantes de alimentação que ficam fora do parque. “Elefantes não entendem fronteiras administrativas, só entendem fronteiras ecológicas”, diz Weerakoon. “Estamos pensando apenas como seres humanos. Temos de pensar também como elefantes.”

Inevitavelmente, diz Fernando, as pessoas terão de aprender e se acostumar a conviver com elefantes. Muitas das mortes associadas ao conflito, segundo ele, não são causadas por ataques deliberados, mas por acidentes em que pessoas trombam com os animais, caminhando, dirigindo ou andando de bicicleta à noite sem lanternas. Ou por guardarem grãos dentro de casa, que atraem os elefantes.

“As pessoas não aceitam dividir espaço com os elefantes, por isso não tomam algumas precauções básicas para se proteger”, diz ele. “Se você ocupa uma terra onde vivem elefantes, tem de entender que haverá consequências. Se as pessoas aceitassem isso, tudo ficaria mais simples.”

Eventuais remoções de elefantes, segundo ele, devem ser focadas nos machos individuais que causam os conflitos, e não na manada inteira.

No curto prazo, cada vila e cada agricultor lida com o conflito da maneira como pode. Quem tem dinheiro, coloca uma cerca elétrica em volta da sua propriedade. Quem não tem, dorme em cima das árvores e tenta afugentar os bichos com tiros de rojão, ou de espingardas. Mais sagrado ainda do que um elefante é uma safra de arroz.

Número exato de elefantes é desconhecido

Ninguém sabe ao certo quantos elefantes selvagens há no Sri Lanka. E talvez seja melhor não saber mesmo, segundo alguns pesquisadores.

O levantamento mais recente, conduzido em agosto pelo Departamento de Conservação da Vida Selvagem do Sri Lanka, contou 5.879 elefantes selvagens no país, dos quais 987 são machos e apenas 122 (2%) têm presas (os chamados “tuskers”). O resultado, porém, é contestado por especialistas de fora do governo, que questionam tanto a metodologia quanto o propósito do censo.

Dezenas de cientistas e ambientalistas se recusaram a participar do estudo depois que o ministro de Vida Selvagem, S.M. Chandrasena, deu uma entrevista sugerindo que 300 elefantes seriam selecionados por meio de censo para serem capturados, domesticados e doados a templos budistas. Assim, o levantamento acabou sendo feito em grande parte por voluntários menos qualificados, como fazendeiros e soldados, em três dias de observação.

Para pesquisadores, o resultado é pouco confiável, pois é baseado numa metodologia simplista de observar elefantes ao redor de lagos e poças d´água (“water hole count”, em inglês). É muito provável que vários elefantes tenham sido contados mais de uma vez, assim como muitos elefantes podem não ter sido contados nenhuma vez. A margem de erro é grande.

As diferenças

“Na África você pode contar elefantes usando uma imagem de satélite. Aqui é muito mais difícil”, diz o pesquisador Devaka Weerakoon, da Universidade de Colombo. Apesar do tamanho, os elefantes são capazes de se movimentar com extrema agilidade e em silêncio por vegetação densa. “Eles podem estar a 5 metros de distância e você não vai ver nem ouvir nada.”

Seja como for, o número exato pouco importa para os pesquisadores. “Não precisamos saber quantos elefantes existem, a não ser que estejamos prontos para tomar alguma decisão com relação a isso”, argumenta Weerakoon. “Caso contrário, é só uma curiosidade, sem nenhuma aplicação prática.”

Em outras palavras: Cinco mil elefantes é muito, ou é pouco? E se é muito, o que fazer com o “excesso”? “Não acho que o governo nem a sociedade estejam preparados para responder isso”, diz Weerakoon.

A avaliação geral é de que há mais de cinco mil elefantes selvagens no Sri Lanka. O direto do Departamento de Conservação da Vida Selvagem, H.D. Ratnayake, disse ao anunciar os resultados que a população da espécie está “saudável e crescendo”. Outros especialistas, porém, relutam em fazer essa afirmação.

“Não digo que está saudável, nem que está doente”, diz Srilal Miththapala, consultor do setor de turismo, que estuda a situação dos elefantes do país há vários anos. “Simplesmente não sabemos. As incertezas são muito grandes.”

“O que sabemos com certeza é que a quantidade de hábitat disponível para esses elefantes encolheu e continua a encolher rapidamente”, diz o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka. “Isso é o que mais importa.”

O ministro mais tarde fez uma retratação e disse que foi mal interpretado pela mídia. Nenhum elefante foi capturado.

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