Hackers buscam soluções urbanas

Sem depender do uso exclusivo de tecnologia, intervenções de código aberto têm a proposta de não esperar o poder público para encontrar soluções

Lucas Lopes e Thiago Wagner

Uma cidade onde a qualidade do ar é medida na porta de casa, as informações sobre linhas de ônibus são compartilhadas pelos próprios moradores e as plantas, regadas de maneira automática. Iniciativas que não envolvem governos ou empresas privadas. Partiram de hackers urbanos, cidadãos que desenvolvem soluções para intervir no espaço público. E não tem nada que ver com invasão de banco de dados. “Qualquer um tem como se tornar um hacker da cidade. As soluções podem ser simples”, diz o holandês Martijn de Waal, pesquisador da Universidade de Amsterdã considerado um dos principais especialistas do tema.

O Largo do Batata, em Pinheiros, na zona oeste da capital paulista, é um dos locais que já sofreram uma intervenção hacker. O local recebeu em março um medidor de poluição de baixo custo, que pode servir como fonte de consulta alternativa sobre a qualidade do ar. O equipamento, por enquanto, está em fase de testes, mas a proposta é que comece a funcionar em outros dois pontos da cidade em 2016. Por trás da ideia estão o projeto hacker Código Urbano e o Garoa Hacker Clube, primeiro hackerspace do Brasil, fundado em 2011. O local funciona como uma espécie de laboratório voltado para assuntos da vida urbana.

Mas não é preciso frequentar tais espaços para intervir na cidade. Basta ter uma proposta de mudança e adotar uma atitude mais ativa em prol do coletivo. “Na minha recente viagem ao Brasil, vi que uma empresa criou etiquetas dizendo ‘qual ônibus passa aqui’, permitindo que as pessoas tenham informação sobre os trajetos de ônibus na cidade”, lembrou De Waal. “É tipo de hacker cívico.”

O exemplo citado por De Waal vem de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e foi elaborado pelo Shoot the Shit, que existe desde 2010. O projeto Que Ônibus Passa Aqui desenvolveu adesivos para que a população imprima e cole nos pontos, anotando ali as linhas que circulam na região. O material pode ser baixado do site da empresa (www.shoottheshit.cc). “Andamos pela cidade com a mente aberta. Sempre tentamos encontrar detalhes e perceber alguns problemas”, explica Luciano Braga, um dos fundadores do Shoot the Shit.

Um dos projetos arquitetônicos desenvolvidos para o Fab Flotante Crédito: Divulgação

Para o secretário de Cultura de São Paulo, Nabil Bonduki, intervenções na cidade são sempre bem-vindas, desde que sirvam para melhorar a qualidade de vida do cidadão e exista articulação entre as duas partes. “É uma questão de entendimento para multiplicar as ações”, defende Bonduki, que é arquiteto e urbanista. A tecnologia, diz ele, pode ser aliada no processo.

Multiplicação

Vários projetos de hackers são em código aberto, ou seja, fica fácil replicar a iniciativa. É possível instalar o medidor de qualidade do ar de São Paulo, por exemplo, em outras cidades. “Se alguém quiser pegar os dados do medidor e chamar de ‘poluição na Bahia’, não há problema”, diz Gustavo Faleiros, coordenador do Earth Journalism Network, ligado ao Código Urbano.

Outro exemplo de projeto em código aberto é o Jardino, criado pelo Garagem Fab Lab. Trata-se de um aparelho que pode ser programado para regar plantas sempre que for necessário.

O equipamento, por enquanto, traz benefícios para a horta de temperos mantida por moradores de rua no Viaduto do Chá, no centro da capital paulista. Mas o Jardino tem potencial para ser utilizado em outros lugares públicos, como escolas. “Procuramos preencher espaços vazios. Não só físicos, mas de conhecimento”, afirma o criador do dispositivo, Tauan Bernardo, que também é diretor financeiro do Garagem.

A arquiteta Carolina Cardoso, diretora executiva do Garagem, ressalta a importância de projetos como o Jardino para a transformação da cidade. E fala da necessidade de todos participarem ativamente desse processo de mudança. “O hacker tem muita influência no empoderamento urbano”, afirma Carolina.

Offline

O Instituto a Cidade Precisa de Você não usa arduíno ou softwares, mas adota princípios hackers. Foi a ONG que instalou bancos de madeira com abrigo contra o sol no Largo da Batata, área de grande circulação que concentra estações de metrô e pontos de diversas linhas de ônibus. “Pequenas ações como essa podem mudar o espaço com relevância”, disse a fundadora do instituto, a urbanista Laura Sobral. A ONG promete novas intervenções para dar mais conforto a quem frequenta o Largo da Batata.