Dos seres vivos aos robôs

Biólogo usa robótica em projetos extracurriculares de escola na periferia de SP

Rute Pina

No papel, Alan Barbosa de Paiva consta como professor de Biologia da rede estadual de São Paulo. Mas suas atividades vão além. “Oficialmente, eu nem poderia falar que ensino robótica”, diz Paiva, de 36 anos. “Quando conto isso, vira piada.” Essas aulas, que fazem parte do projeto extracurricular Pequenos Cientistas, permitem que ele coloque em prática sua crença pessoal, a de que as áreas do conhecimento não podem ser estanques.

Paiva dá aulas em escolas públicas desde 2007 e há quatro anos realiza programas de robótica no colégio Elza Facca Martins Bonilho, no Campo Limpo Paulista, zona sul da capital. “As pessoas precisam mudar essa visão de que um biólogo não pode fazer um robô e que biologia tem de estudar apenas seres vivos.”

O contato do professor com a robótica começou depois de um estudante se interessar por fazer uma sonda para um minifoguete. Só que ninguém no colégio sabia orientá-lo. Foi neste momento que Paiva decidiu fazer uma oficina para aprender a trabalhar com arduínos, um microcontrolador que está por trás de vários dos projetos maker de tecnologia. Autodidata, ele também passou a ler e a frequentar o Garoa Hacker Clube para entender de robótica. Começava aí o projeto Pequenos Cientistas.

Professor Alan Paiva se propôs a aprender robótica para ensinar os alunos da E.E. Elza Facca Martins Bonilho Crédito: Arquivo pessoal

O resultado veio na forma de medalhas. A equipe treinada pelo professor já foi premiada na Olimpíada Brasileira de Robótica e no desafio da Unicamp. Hoje, o grupo tem 18 alunos de várias séries: do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. “Se eu tivesse espaço, teria mais de cem participantes. Todo mundo gosta, mas não tenho infraestrutura”, lamenta. A escola em que ele leciona não está entre as que oferecem projetos de robótica no currículo. Atualmente, os colégios em tempo integral são os únicos da rede estadual que têm a disciplina.

O professor costuma driblar a falta de estrutura da forma mais maker, fazendo. Quando precisou de um espectro fotômetro de luz visível, por exemplo, Paiva colocou a mão na massa com os alunos e fez um. A dificuldade, diz ele, é que algumas escolas ainda têm o passado como âncora. “As políticas públicas acertariam se fossem mais maker e menos copistas.”